Apatia

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Cena familiar:

Na sala de jantar é servida a ceia

No silêncio das insinceridades cerimoniais.


Uma oração ressoa no recinto,

Repetindo antigas estrofes,

Em sussurros constrangidos

De crentes formais.


Assim seja:

Destrincham a ave sobre a mesa,

Rasgam suas coxas com extrema destreza,

Devoram seu peito numa voraz frieza.

A carne nua indefesa

Sacia a sedenta e sigilosa

Concupiscência.


Livre associação,

Inconsciência despida:

Soerguem-se os olhos do pai

Sobre a inocência da filha.

Sorri constrangido um sorriso de sangue,

Do famigerado ser infame

Oferecido pela faca fria.


Fálico utensílio,

Que no mesmo instante,

 Também sofre a influência da mão infante.

Na falha no tempo,

É forjada a metáfora:

 A faca no defunto-alimento

 Desafoga a ânsia que afaga o peito

Da filha ofendida.


Assim segue o banquete.

Liturgia familiar, mantém-se a rotina:

Que sorte!

A imolação morta sobre a mesa

É suficiente ao sacerdote apático

Salvando a virgem da violação prevista

Por mais um dia,

Por mais um dia…

Ira – Rancor

ira
Anger (1558) – Pieter Van Der Heyder

O homem ao avesso

Afogava-se na lama do rancor.

Envolto a vencidos,

Que vociferavam ódio,

Engasgava-se em palavras inauditas.


Visto de fora

Era uma fonte límpida,

Um silencioso espelho d’água

Que refletia amenidades

De um mundo vazio.


Mas visto de dentro

O homem cativo

Impelia sua própria asfixia

Regurgitando a implacável ira,

Nascente de um rigoroso e retumbante rio.


Filho da ânsia,

Fraco e faminto,

Cedeu, enfim, seu rosto aos vencidos.

Descarnadas mãos frias

Fizeram-no sentir

A lama fétida

Do odioso vômito,

Alimento de seus dias.


Ao erguer-se

Viu-se em estilhaços.

Espelho d’água manchado,

Silêncio rompido,

O homem ao avesso

Agora vociferava o ódio

Ao lado dos vencidos.

Gula ou Catálogo de Sabores

gula
Gluttony (Gula) (1558) – Pieter Van Der Heyten

No Freak Show da feira moderna,

Enxovalhava-se o glutão

No catálogo de sabores.


Uma crosta de gordura

Azeitava os retratos

Das virgens jejuadoras

Oferecidas pela casa.


Insaciavelmente faminto

Lambuzava-se sobre as fotos desfocadas

Que escondiam as faces inexpressivas

De um sexo fútil.


Uma dose de Vodka, e

Uma pílula de Viagra

Disfarçavam também as verdades

E uma inconveniente

Falta de prazer.


Feita a escolha,

O prato principal descia a passarela

Numa anorexia santa.

Caso clínico:

Elevava-se o espírito

Abstendo-se do corpo.


Antropofagia às avessas:

Devorada a fêmea

Pelo glutão impotente;

Fortalecia-se a mulher

numa supremacia infinita.

Herança Coletiva

Via L‡ctea - Milky Way

Emana no universo

 a imagem de uma imensa vaca

Que amamenta o mundo

com ideias cegas.

Dos seus úberes, desmedidas tetas,

 Via-Láctea,

Escorrem pastosos líquidos

Nas faces da Terra.


Numa das tetas,

respingam os fluidos da identidade,

herança que se prende

nas paredes inexistentes

da catedral suspensa.

A pedra fundamental da individualidade

É o leite coalhado

No contato da consciência

com a acidez do inconsciente.


Na outra teta,

Derrama o sangue do sexo.

A serpente sedenta,

Que sobe pelas patas bovinas,

Burla a alvura intacta.

Delicia-se ardentemente

do leite quente

No seio da fêmea violada.


Na terceira teta,

Jorra o sêmen da androginia

Para o contrato social já feito no útero,

Homem é homem

Mulher é mulher.

Porém o amálgama Junguiano diz o contrário:

Nasce o duplo,

Mas que é obrigado a viver separado.


Na última teta,

Uma máquina ordenhadeira faz o trabalho,

Aumenta a produção, padroniza o processo

E melhora os resultados.

Após isso, o leite é encaminhado para seu empacotamento:

Embalagens longa vida,

Caixinhas assépticas de máscaras sociais,

Revestimento arquétipos de personas ideais.

Inconsciente Iceberg

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Estética.


Vista de fora

a pedra impassível

mostrava-se sólida,


Impenetrável frieza

como um colossal monumento

feito de mármore.


Rocha rígida

sedimentada nos lençóis

dos grandes mares


Vivência completa

para quem a observa

sem profundidade


Espírito.


Vista de dentro

A pedra imprecisa

Revelava-se frágil.


Adversa ao cárcere

Investia contra as grades

Da corpulenta estrutura.


Sangrava sozinha

Sem compreender sua sina

no perpétuo cativo.


De ser ao mesmo tempo

uma imagem constante

e um horizonte infinito.

Ego

ego
M.Escher

Habito a ruína de uma catedral vazia,

Onde entoo meus hinos ao infinito,

Cânticos primordiais da grande temporalidade,

Os velhos mandamentos do inconsciente coletivo.


Do teto, abóboda estrelada, em que leio os mortos,

Clareia-me a vida entre carbonos e complexos.

Compreendo os nexos e desenterro os ossos

Do passado fulgente, o lume eterno.


Tramam os fios polifônicos as Constelações,

Tarântulas torturadoras dos desígnios humanos.

Amarram-me aos nervos os antigos arquétipos,

Arquitetura espinhal dos meus mais profundos sonhos.


Recebo a seiva celeste desse universo possível:

As soluções pré-concebidas na história da humanidade.

Torno-me Sócrates, Jesus e Darwin

Torno-me também o inominado desconhecido.


Eu, amálgama forjada no âmago do tempo,

Rompo a barreira entre o passado e o presente

Pressentindo ser essa ruína sagrada

A obra inacabada do meu ego nascente.

 

Arquétipos

arquétipo

Das fundações profundas do mundo,

Onde dormem as imagens primordiais,

Retumbam os sons da velha pedra

Com as mesmas ordens,

Ao homem moderno,

Que regiam a vida dos seus ancestrais.


Constroem a superestrutura

Tropas e tropas de criaturas

Condicionadas a criativas reformas providenciais.

Traçam projetos, escrevem planos

De uma nova ordem mundial.


Esquecem-se, porém, dos arquétipos,

As vigas imanentes desse prédio,

Arquitetura inconsciente atemporal,

Que destroem o protótipo recriado ontem

Com a mesma voracidade

Que se sedimentam novamente na maquete


O homem que se dá conta disso

Percebe-se inútil e só

Mergulhado no esqueleto de um abismo,

Na imensidão imaterial

de um templo de tradições pré-concebidas

que rejeita toda forma de revolução.

Singularidade

singularidade

A Sombra de um eco surdo,

que ressoa no infinito abissal,

 transcende o alvorecer dos tempos,

como a Singularidade que antecede o estrondo,

Criador dos velhos deuses.


A densa e ilógica matemática das pedras,

agramatical sintaxe do absurdo,

que nas profundezas diacrônicas

produziam menos sentido

do que átomos sem energia.


Fundiram-se em concreto e fumaça os elementos:

conceito, imagem acústica e matéria.

Eclosão sintética:

entendeu-se a pedra.


Assim, fugiu do homem um rugido,

mas que era o universo inteiro.

Primeira palavra, pedra fundamental:

nasceu a Linguagem.

Inveja

invitia
The Ass in the School. (1558) – Pieter Van Der Heyden

Semicerrados olhos

Sangravam pus

Enquanto ceifavam

As flores alheias.


A seiva que escorria

Do caule das plantas

Sedimentava-se ao contato

Com o círculo da inveja:

“Flores de pedra, flores eternas”,

Bradavam os olhos de tristeza.


Uma gargalhada vertiginosa

Despencou no desfiladeiro das almas

Atingiu, no alicerce,

O rio de águas esverdeadas,

Onde outros olhos em pus

 Lacrimejavam raivas


Retornou ao topo.

Esbarrou numa pétala persistente.

Gerou-se o desconforto.

Ela, um escudo reluzente,

Mostrou àqueles olhos

Seu próprio rosto:


Desvelado o vulto,

Revelou-se o eu-medonho

Que ceifava a si mesmo,

Num sacrifício cego:

“olhos de pedra, olhos eternos”,

Bradava ao sedimentar

O último sonho.

Castidade – Lavoura

castitas
Kuisheid (Castitas) (1560) –  Cornelis Cort

Jorra água na terra do hortelão.

Sua ceifa é fruto de uma sintonia natural.

Sábio que é entende os sinais:


Os frescos suspiros do vento,

As viradas repentinas do ar,

A umidade que antecede as torrenciais.


Enquanto o inexperiente cava o poço

Atrapalha-se no trabalho duro

E antinatural


O hortelão retarda o plantio

Sabendo que a terra

Encerra em si

A sabedoria da espera.


Enquanto o megalômano rompe barragens,

Muda o curso dos rios,

Dos arroios e riachos.


O hortelão assenta a semente

Na terra preparada,

Que espera, em êxtase,

A chuvarada.