Castidade – Lavoura

castitas
Kuisheid (Castitas) (1560) –  Cornelis Cort

Jorra água na terra do hortelão.

Sua ceifa é fruto de uma sintonia natural.

Sábio que é entende os sinais:


Os frescos suspiros do vento,

As viradas repentinas do ar,

A umidade que antecede as torrenciais.


Enquanto o inexperiente cava o poço

Atrapalha-se no trabalho duro

E antinatural


O hortelão retarda o plantio

Sabendo que a terra

Encerra em si

A sabedoria da espera.


Enquanto o megalômano rompe barragens,

Muda o curso dos rios,

Dos arroios e riachos.


O hortelão assenta a semente

Na terra preparada,

Que espera, em êxtase,

A chuvarada.

Luxúria – Abatedouro

É preciso ser muito primário para achar que o sexo é um ato físico.

(Millôr Fernandes)

luxuria
Luxuria (Lust) (1558) – Pieter Van Der Heyden

Inculto corpo fálico

Corta a carne virgem

Com a lâmina selvagem

Dos instintos mais profundos.


Uma vaca procriadora

Muge num paroxismo involuntário

Enquanto sangra.


Na sala fria e insalubre,

Escorrem líquidos distintos,

Das entranhas de ambos.


Um odor di femmina,

Que dilata os olhos,

Estoura as veias

Num arfante gozo

Do macho que come.

Avareza

Avaritia
Avarice (Avaritia) (1558) – Pieter van der Heyden

Atrás do muro há uma parede
Envolta há mil homens armados
Plebe, vedes!
Plebe, vedes
O poderio da liberdade!


Da pequena feira fez-se o forte,
Cidadela sitiada
– olha a fruta, olha verdura, olha o trigo!
Obra de Deus,
De tua venda, deves dízimo.


Chegam caixeiros, artesãos e camponeses,
Tomam as ruas em revolução
– Ordem no comércio!
Gritam os burgueses,
Os donos da região.


Um saque acontece na tenda ao lado
Correm todos para a ocasião
– Segurança no burgo!
Grita um vilão.
Cercam os muros bravos soldados:
-É provisória a intervenção.


Paga dízimo, paga soldo, paga imposto
– É preciso esforço!
Sorri o administrador.
Paga talha, paga censo, paga taxa
– São tudo banalidades
Sussurra o cobrador.


Repassa a correção
Sobe o vinho, sobe o pão, sobe o tecido.
– São tempos de recessão!
Na tenda ao lado, outro grito
– não é justa a divisão!
Um novo grito, um estampido
Jaz morta a indignação!


Do alto da torre, surge o trovão
O rei, o imperador, o deus dos desvalidos
Decreta novo artigo ao código regimentador
– Repressão aos baderneiros,
aos desordeiros, nossos inimigos,
contrários à arrecadação!


Instaura-se o golpe,
Um baque nas costas escurece a visão
Ao recobrar os sentidos percebe o vazio
O artesão
A tenda ao lado nem ao menos um suplício
Resta um abismo de solidão.


Prostrado, sozinho e falido
Busca, num último suspiro, alcançar seu pão
Pisoteado por coturnos ordeiros,
Recebe a violência como um não
– É preciso dinheiro para comprar!
Mas são tempos de recessão.

Soberba

superbia
Pride (Superbia) (1558) – Pieter van der Heyden

Verás blasfêmias

Enquanto não fores essência,

E em teu espírito não tocarás.


Quando do alto de um templo

Bradar o estrondoso trovão

Trazendo a palavra do inominado

Prostrarás

Obediente e calado,

Temendo a represália.


Acorrentado às regras

Carregarás pedras e pedras

Na construção de outros templos

Para que outros como os teus

Prostrem-se

Obedeçam e calem-se

Diante do possível soberano rugidor


Passarão anos e anos

E um império será feito

Repleto de cordeiros e outros eleitos,

Que com ossos, sangue e entranhas

Sustentarão as velhas vigas

Das ruínas da religião.


Soberbo, soberbo, Senhor dos céus

Precede à queda o orgulho,

Precede à ruína a altivez

Que um dia teus fiéis súditos

Rompam os grilhões mudos

E cantem à natureza, mais uma vez:

 Blasfêmias e blasfêmias.

O Grão

Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto

(Jo, 12:24)

Vincent_van_Gogh_(1853-1890)_-_Wheat_Field_with_Crows_(1890)
Campo de Trigo com Corvos (1890) – Vicent Van Gogh

A palavra é coisa concreta

É pedra em estado mental,

Fundida de imagem secreta

E ideia de vida real.


A palavra distorce o tempo

É massa que corrompe o espaço,

  Contradição que vira o eixo

Da lógica densa dos fatos.


A palavra é antimatéria

É singularidade profunda

Buraco negro de ideias

Princípio de morte fecunda.