Manifesto Autofágico

autofagia

Desunido. Sou solitário que se alimenta do meu próprio ódio.

O conjunto de leis sociais não mais me representa. Todos os individualismos não formam uma gente.

Só existe uma questão: Existência ou morte?

O resto é pura semiótica:

Deus é um signo;

Amor é um signo;

Estado é um signo;

Homem é um signo.

Minha poesia é cerebral e eu ainda estou vivo.


Eu não tenho escola. A ideologia dominante que me interpela subverto.

E do poeta morto eu só pego a inteligência.

Ainda assim careço da necessidade de sentido.

Entre dois nadas somente uma travessia,

Que só eu devo decidir quando parar.

Essa é a única lei. A lei autofágica.

O resto é natureza.

 

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A Linguística, a linguagem e a língua

Elementos de linguística geral

André Martinet

Capítulo 1

martinet

1.1 A Linguística, disciplina não prescritiva

“A linguística é o estudo científico da linguagem humana” (p.3)

O estudo científico “se baseia na observação dos fatos e se abstém de propor qualquer escolha entre tais fatos, em nome de certos princípios estéticos ou morais” (p.3), sendo assim, ele se opõe à prescrição. A linguística enquanto ciência deve seguir essas condições. Isto é, não se pode deixar de atentar-se para o que realmente se diz para recomendar o que se deve dizer. Mas, isso não quer dizer que o linguista abra mão de apontar “as censuras ou apreciações” (p.3), porém se abstém de tomar partido a favor ou contra certos fato linguísticos.

1.2 Carácter vocal da linguagem

A linguagem humana “designa propriamente a faculdade de que os homens dispõem para se compreenderem por meio de signos vocais” (p.4). Martinet dá um foco maior no carácter vocal dessa linguagem. Diz que a escrita, ou seja, “signos picturais ou gráficos correspondentes aos signos vocais da linguagem” (p.4) conserva-se enquanto seu suporte existir: pedra, pergaminho, papel. Foi exatamente dessa forma que chegaram até hoje as obras literárias em nossa cultura. Esse prestígio de permanência impõe o signo gráfico “como sendo o único representante válido do complexo” (p.4). No entanto, não se pode esquecer que a linguagem humana é essencialmente vocal, e foi assim por milhares de anos. Ainda hoje, segundo o autor, “a maioria dos homens sabe falar sem saber escrever nem ler” (p.4).

1.3 A Linguagem, instituição humana

Seguidamente atribuímos à linguagem o caráter de faculdade humana, no entanto, “não pode dizer-se que ela resulte do exercício natural de algum órgão, como, por exemplo, a respiração ou a marcha, que constituem, por assim dizer, a razão de ser dos pulmões e das pernas” (p.5). Assim, por mais que se fale em aparelho fonador, os elementos de sua composição têm outras atividades primárias: a boca serve para ingerir alimentos, as fossas nasais para respirar, etc. Dessa forma, Martinet eleva a linguagem a condição de instituição humana, não mais faculdade humana.

Sendo então a linguagem uma instituição humana, tem-se algumas vantagens diante disso: “as instituições humanas resultam da vida em sociedade (…), supõem o exercício das mais diversas faculdades, podem encontrar-se muito espalhadas e ser até, como a linguagem, universais, sem se identificarem nas várias comunidades” (p.5). Dessa forma, a linguagem é diferente entre as comunidades, de uma forma que somente funcionam entre seus membros. Além disso, por não ser uma natureza humana, a linguagem está suscetível a transformações, assim como qualquer outra instituição social.

1.4 As funções da linguagem

A função essencial da língua, que Martinet considera um instrumento, é a comunicação. Ela, por sua condição social, modifica-se ao longo do tempo, basicamente para se adaptar de uma maneira mais econômica às necessidades comunicativas dos seus grupos falantes. Porém, a linguagem exerce, além dessa, outras funções: a de suporte do pensamento; expressão de análises; estética. Mas, acima de tudo, a língua é o instrumento de comunicação, Martinet diz que “quem quiser exprimir-se deve procurar um público, diante do qual representará a comédia do comércio linguístico” (p.7). Exatamente essa necessidade comercial que mantém a língua e conserva o bom estado desse utensilio.

1.5 Serão as línguas nomenclaturas?

Costumeiramente define-se o conceito de língua como um repertório de palavras que correspondem a uma coisa. Nesse pensamento, aprender, por exemplo, uma segunda língua, seria apenas conhecer uma nomenclatura nova paralela a que se domina para representar algo. Isto é, a reorganização dos elementos e a imitação dos sons da linguagem, o chamado “sotaque”.

1.6 A Linguagem não declara a realidade

Essa ideia de língua-repertório, para Martinet, é muito simplista, pois pressupõe que todas as coisas se organizam em categorias mesmo antes de serem designadas. Esse argumento falharia quando usado a arbitrariedade das subdivisões, por exemplo, de um conjunto de água, que podem ser oceanos, mares, lagos, pântanos, charcos, rio, etc. Diante disso, “cada língua organiza à sua maneira os dados da experiência, e por isso aprender uma língua nova não consiste em colocar novos rótulos em coisas conhecidas, mas, sim, em habituarmo-nos a analisar doutro modo os objetos” (p.9)

1.7 Cada língua possui seus sons

“Não se passam diferentemente as coisas no domínio dos sons da linguagem” (p.9).  Isso quer dizer que em diferentes línguas e mesmo dentro de uma mesma língua a mesma ortografia representa diversas pronúncias. Assim, o sotaque “resulta da identificação abusiva de unidades fônicas de línguas, dialetos e falares diferentes” (p.10)

1.8 A dupla articulação da linguagem

A linguagem humana é articulada. Sabendo disso, Martinet se propõe explicar essa noção de articulação e observar que ela funciona em dois planos diferentes. “Pela primeira articulação, as experiências a transmitir (…) analisam-se numa série de unidades, cada uma delas possuidora de uma forma vocal e de um sentido” (p.10 e 11). Dessa forma, por exemplo, se eu estiver com dor de cabeça e manifestar meu sofrimento a partir de gritos, não estarei num conjunto analisável da situação. Diferentemente se eu pronunciar a frase “tenho uma dor de cabeça”, “nenhuma das cinco unidades sucessivas que a compõem (tenho, uma, dor, de, cabeça) corresponde ao que na minha dor há de específico, e cada uma delas pode figurar noutros contextos para exprimir outra coisa” (p.11). Essa relação é uma posição econômica da língua. Martinet sugere que imaginamos um sistema de comunicação em que cada grito correspondesse a uma dada experiência. Isso geraria um número de signos talvez superior ao que a memória humana pudesse suportar.

“A primeira articulação é o modo por que se ordena a experiência comum a todos os membros de determinada comunidade linguística” (p.11), isto é, só é comunicável o que pode ser compreensível a considerável número de indivíduos. Essas unidades seriam, por exemplo, os adjetivos, os substantivos, os advérbios, etc.

“Cada uma das unidades de primeira articulação tem um sentido e uma forma vocal” (p.12), isso quer dizer, não se pode analisar em unidades menores dotadas de sentido, é o conjunto cabeça que gera seu sentido, não a soma dos elementos ca-be-ça. No entanto, a segunda articulação é exatamente essa sucessão de unidades fônicas que contribuem todas para distinguir, por exemplo, cabeça de cabaça. Assim como a primeira articulação, a segunda manifesta também seu caráter econômico, ‘se cada unidade significativa mínima correspondesse uma produção vocal específica e inanalisável, teríamos que distinguir milhares delas” (p.12).

1.9 As unidades linguísticas básicas

Um enunciado ou parte dele que faz sentido designa-se por signo linguístico. Esse é composto por um significado, que constitui o sentido ou valor, e um significante, a manifestação do signo. Além disso, as unidades menores são chamadas de MONEMAS. “Como os outros signos, o monema é uma unidade de suas faces: a face significativa (sentido ou valor) e a face significante, que fonicamente a manifesta e se compõe de unidades de segunda articulação, ditas FONEMAS” (p.13). Os monemas que se situam no léxico, não na gramática, são chamados de lexemas. Já aqueles que se situam na gramática são os morfemas.

1.10 Forma linear e caráter vocal

As línguas se manifestam de forma linear nos enunciados, isso se deve basicamente pelo seu caráter vocal. “Os enunciados vocais decorrem necessariamente no tempo e são necessariamente captados pelo ouvido como sucessões”(p.13). Ao contrário, por exemplo, da comunicação pictural. O pintor pode criar a mensagem com um elemento por vez, no entanto, a recepção dela é feita como um todo. Esse caráter linear explica a sucessividade dos monemas e dos fonemas. Quanto aos fonemas, a mudança da linearidade dos elementos acarreta numa alteração do valor do signo, por exemplo, ‘rumo’ possui os mesmos elementos de ‘muro’, porém a ordem altera o signo. Já no nível dos monemas isso nem sempre acontece, como por exemplo, ‘ele virá amanhã’ e ‘amanhã, ele virá’, o valor do enunciado não se altera. Porém em ‘o caçador matou o leão’ e ‘o leão matou o caçador’, a reconfiguração do elemento altera o valor do enunciado.

1.11 A dupla articulação e a economia

Até hoje, em todas as línguas, o tipo de organização com a dupla articulação, parece ser o mais adaptado às necessidades humanas. A economia que isso resulta permite “transmitir tanta informação por tão baixo preço” (p.14). Além disso, produz uma maior estabilidade à forma linguística, tornando independente do valor do significado a forma do significante. Essa estabilidade é possível perceber, por exemplo, nos segmentos /m/ /a/ /l/ de mal, que são componentes de outros significantes da língua também: /m/ de mar, /a/ de gato e /l/ de sal.

1.12 Cada língua tem a sua articulação própria

Martinet diz que “cada língua articula a seu modo enunciados e significantes” (p.15), ou seja, em determinada situação, línguas como Português, Espanhol, Francês podem recorrer, dentro de um enunciado, análises diferentes. Sabemos, assim, que uma palavra duma língua não tem equivalente exato noutra. Exatamente por isso que a variedade de análise resulte maneiras diferentes de considerar determinado fenômeno. Isso também acontece na relação entre os fonemas e suas representações gráficas, isto é, mesmos caracteres, em função da natureza econômica da língua, podem representar fonemas diferentes.

1.13 Número dos monemas e dos fonemas

Teoricamente o número de enunciados de uma língua é infinito. Não se pode precisar quantos monemas distintos possui uma língua. Porém, os monemas são “de longe menos numerosos que as palavras” (p.17). Dessa forma, enquanto os monemas constituem uma LISTA ABERTA, pois podem ser criados a partir de necessidades; os fonemas constituem uma LISTA FECHADA, por exemplo, o castelhano distingue 24 fonemas, o francês 31. Além disso, alguns fonemas podem ser representados por grafias diferentes, como o “x” e o “ch”, o “s” e o “ç”.

1.14 Que é uma língua?

Martinet, após o desenvolvimento de sua análise, define língua:

Uma língua é um instrumento de comunicação segundo o qual, de modo variável de comunidade para comunidade, se analisa a experiência humana em unidades providas de conteúdo semântico e expressão fônica – os monemas; esta expressão fônica articula-se por sua vez em unidades distintivas e sucessivas – os fonemas -, de número fixo em cada língua e cuja natureza e relações mútuas também diferem de língua para língua” (p. 17 e 18)

1.15 Á margem da dupla articulação

É frequente, em Português, marcar o caráter interrogativo do enunciado com uma simples subida melódica, que diferencia “ele saiu.” (afirmação) de “ele saiu” (interrogação). Essa curva melódica, segundo Martinet, é um signo, de significado “interrogação”, e significante a “subida da voz”. No entanto, essa curva melódica se sobrepõe às articulações, isto é, não se deixa analisar numa sucessão de fonemas e não ocupam uma posição no enunciado. Esses fatos linguísticos que não respeitam a articulação são os suprassegmentais, e fazem parte da prosódia.

1.16 Caráter não discreto da entoação

Segundo Martinet, a oposição fundamental entre a diferença melódica de uma afirmação e uma interrogação é a distensão dos órgãos de fala: “a fisiologia dos órgãos de fala provoca normalmente no início do enunciado uma subida da voz correspondente a uma progressiva distensão” (p.19). Caso isso não aconteça, tem-se a impressão de que o enunciado não terminou, está incompleto. Dessa forma, numa afirmação há uma descida na voz, enquanto na interrogação, uma subida. Assim, a significação do enunciado irá variar de acordo com o grau de altura ou profundidade atingido, como, por exemplo, uma nota muito baixa implicará uma afirmação brutal.

1.17 As unidades discretas

Palavras como “bata” e “pata” distinguem-se somente porque no lugar do fonema /b/ ocorre o fonema /p/. A passagem do /b/ para o /p/ é uma redução progressiva das vibrações das cordas vocais, ou seja, “enquanto elas se conservarem perceptíveis, a palavra pronunciada será compreendida como “bata”, mas, a partir de certo momento, o ouvinte compreenderá “pata”” (p.20). Então, por exemplo, em um ambiente com ruído, ao ser pronunciado o enunciado “é uma linda bata”, pode ser compreendido como “é uma linda pata”. O interlocutor terá que decidir qual interpretação dará. “Tudo isso se resume dizendo que os fonemas são UNIDADES DISCRETAS” (p.20). Então, “os fonemas são unidades discretas” (p.21), no entanto, os traços prosódicos não são, isto é a entoação do que falamos.

1.18 Língua e fala, código e mensagem

Martinet diz que se “uma língua possui, por exemplo, 34 fonemas equivale a dizer que é entre 34 unidades de segunda articulação que em cada ponto do enunciado o locutor tem que escolher para produzir o significante correspondente à mensagem” (p.21). O mesmo podemos dizer os monemas, no entanto, com a diferença que não conseguimos precisar sua quantidade. Assim, chega-se a ideia de que a língua parte de uma organização psico-fisiológica que condiciona determinadas normas, que serão manifestadas no discurso, ou nos atos de fala. Dessa forma, a tradicional oposição entre língua e fala pode ser expressa nos termos de código e mensagem, isto é, o código permite a composição da mensagem, que através do confronto entre os elementos define-se o sentido.

1.19 Cada unidade supõe uma escolha

“Dos fatos linguísticos, uns revelam-se ao simples exame dos enunciados e outros apenas pelo confronto de enunciados diferentes” (p.23). Por exemplo, num enunciado qualquer, os elementos que o compõe são resultados de algum tipo de seleção. Ou seja, compreender uma língua é perceber as seleções. Isso também funciona com os fonemas, as latitudes combinatórias evidenciam a proximidade e distanciamento das unidades distintivas. Essas relações, evidente, pertencem à experiência de comunicar-se, dessa forma, elas não são plenamente gratuitas.

1.20 Contrastes e oposições

Os signos ou fonemas se relacionam de dois modos distintos: dentro do enunciado, que essa relação é chamada sintagmática e designa os CONTRASTES. Ao mesmo tempo, há também a relação de unidades excludentes entre si, cuja relação é chamada de paradigmática e designa OPOSIÇÕES.