O Coveiro

“Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (JOÃO 12:24).

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O mundo é um cemitério de ideias

Onde germina a erva da semente morta,

O advento da existência sem esperança.


Somente no pensamento a ideia vive

Onde, sublime, é irrealizável

Um grão de trigo infecundo e inútil.


Eu sou um coveiro de ideias,

O semeador da essência humana:

É na obra que a ideia morre ao realizar-se.

É a vida o fruto dessa falência.

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A Maçã

Como a doce maçã que enrubesce no galho mais alto

No alto do alto e que o colhedor de maçãs esquecia –

Não esquecia mas nunca seria capaz de alcançá-la

(SAFO)

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Apodreceu.

O fruto mais alto da macieira:

Imaculada e solitária maçã.

A Teoria do Cubo de Gelo

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A mudança de estado não altera a substância:

É sensibilidade o pranto incontrolável de extrema tristeza;

É sensibilidade o olhar melancólico e desolado do abandono;

E é sensibilidade também a inexpressividade petrificada da perplexidade.

A teoria do cubo de gelo:

Mesmo aparentemente sólido e frio,

Ele ainda assim permanece água.

O Domesticador

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Um lago turvo de águas brutas

Corre pelas galerias do inconsciente humano:

O sexo e a morte pulsam nas correntezas do recalque.


O Homem, alheio ao borbulhar vulcânico de sua psique,

Cria regras castradoras contra a libido,

Sob o advento da civilização pacífica.


Domesticado, rejeita sua própria natureza,

E como um animal domado arranha a própria pele

Em busca de dor e de prazer secretos.


Porém não compreende que essa represa

Transborda, rompe, rebenta

Num eterno retorno às pulsões primordiais.


Não há nada mais próximo da morte do que o sexo

E não há nada mais próximo do sentido da vida

Do que a própria morte.

Plano de Ensino de Literatura para Ensino Médio

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1.Base Legal

Esse projeto de ensino foi elaborado com base a legislação vigente da educação, da cultura e dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Segundo a Constituição Federal, são objetivos fundamentais da República: “I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (CF/88, Art. 1).  Além disso, a Constituição garante também ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (CF/88, Art. 5, IX).

Outro documento importante para formação do plano de ensino é a Lei 9.394/96, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em seu primeiro artigo, define que

A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

Além disso, diz que “a educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania” (LDB/96, Art. 22).

O Ensino Médio é a etapa final da educação básica e tem, segundo o artigo 35 da LDB, as seguintes finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Para a organização curricular da disciplina é utilizada a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é “um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BNCC, 2018, p.9). Esse documento organiza dez competências gerais da Educação Básica, são elas:

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
  3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
  4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
  5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
  6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
  8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
  9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
  10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (BNCC/2018, p. 11 e 12)

Dessa forma, é muito importante deixar claro o que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimento, habilidades, atitudes e valores) e o que devem “saber fazer” (a mobilização do conhecimento, a habilidade e atitudes). Espera-se, diante disso, que a escola seja capaz de formar jovens críticos, criativos, autônomos e responsáveis.

O foco da área das Linguagens e suas Tecnologias é a

Ampliação da autonomia, do protagonismo e da autoria nas práticas de diferentes linguagens; na identificação e na crítica aos diferentes usos das linguagens, explicitando seu poder no estabelecimento de relações; na apreciação e na participação em diversas manifestações artísticas e culturais; o no uso criativo das diversas mídias (BNCC/2018, p.472)

A literatura e a leitura devem ocupar o centro do trabalho no Ensino Médio, na área das linguagens:

Como linguagem artisticamente organizada, a literatura enriquece nossa percepção e nossa visão de mundo. Mediante arranjos especiais das palavras, ela cria um universo que nos permite aumentar nossa capacidade de ver e sentir. Nesse sentido, a literatura possibilita uma ampliação da nossa visão de mundo, ajuda-nos não só a ver mais, mas a colocar em questão muito do que estamos vendo e vivenciando. (BNCC/2018, p.500)

Sendo assim, o Plano de Ensino Integrado de Literatura busca ir ao encontro das bases legais, para garantir uma visão de mundo mais ampliada ao aluno e seu desenvolvimento como cidadão de pensamento crítico, responsável e autônomo. Espera-se, a partir dessa organização curricular, contribuir para a construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária. A compreensão da cultura do país e da identidade e autonomia da nação e dos seus cidadãos são fundamentais para isso. Exatamente esse será o eixo central das aulas de literatura e leitura.

  1. Matriz de Referência da Disciplina de Literatura

Objetivo Geral: Desenvolver, no aluno, o pensamento crítico, responsável e autônomo.  Para que, a partir disso, ele compreenda a cultura da sociedade em que vive e perceba-se como cidadão com domínio de sua identidade e com capacidade de construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária.

Competências mínimas da disciplina de Literatura

Segundo a matriz de referência de Linguagens, códigos e suas tecnologias, do ENEM, espera-se que o aluno seja capaz de:

 Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.

Além disso, “compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação”.

Para isso, é importante organizar mais didaticamente as competências, que serão divididas da seguinte forma: Macroliteratura, em que serão discutidos assuntos de amplitude social e de momento de produção; e Microliteratura, em que serão discutidos assuntos mais específicos da produção literária, da literariedade e dos sistemas simbólicos que constroem a obra literária.

Macroliteratura Microliteratura
1. Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

2. Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.

3. Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional

1. Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.

2.  Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.

3. Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.

  1. Letramento Literário

Para que o desenvolvimento desse projeto seja eficaz e contemple tudo o que se espera da disciplina de Literatura na escola, será utilizado o método do Letramento Literário. Maga Becker Soares, em Letramento: um tema em três gêneros (1998), diz que “trata-se não da aquisição da habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que estão a ela relacionadas” (COSSON, 2018, p.11). Isto é, a compreensão do mundo e de si mesmo, a organização da sociedade, tudo isso é feito com primazia pela escrita. Sendo assim, a literatura cumpre, na escola, um papel humanizador porque dá sentido aos saberes. Enquanto a alfabetização é somente a aquisição da língua como ferramenta de comunicação.

Segundo Rildo Cosson, em Letramento Literário (2018),

É fundamental que se coloque como centro das práticas literárias na escola a leitura efetiva dos textos, e não as informações das disciplinas que ajudam a constituir essas leituras, tais como a crítica, a teoria ou a história literária. Essa leitura também não pode ser feita de forma assistemática e em nome de um prazer absoluto de ler. Ao contrário, é fundamental que seja organizada segundo os objetivos da formação do aluno, compreendendo que a literatura tem um papel a cumprir no âmbito escolar” (p.23)

Esse pensamento escolariza a literatura, pois ela deixa de ser apenas um prazer e passa a ser meio indispensável para a formação do sujeito. A partir disso, a interpretação passa a ser um mecanismo fundamental para o letramento literário. O domínio de técnicas e de uma análise sistemática revelam que a leitura não nos provoca sentimentos, mas, sim, sentidos do texto. Então, isso permite que o leitor compreenda melhor o livro, potencializando e intensificando a ‘magia’ da literatura.

O desenvolvimento do letramento será feito em três etapas:

“A primeira etapa, que vamos chamar de ‘antecipação’, consiste nas várias operações que o leitor realiza antes de penetrar no texto. (…) A segunda etapa é a ‘decifração’. Entramos no texto através das letras e das palavras. (…) Denominamos a terceira etapa de ‘interpretação’ (…) as relações estabelecidas pelo leitor quando processa o texto” (COSSON, 2018, p.40)

Essa ideia coloca a literatura como o centro da aprendizagem, não como meio para outros saberes e habilidades, nem como objeto histórico, teórico ou crítico. Assim é possível contemplar o que se espera da formação do sujeito na escola – um cidadão autônomo, crítico e responsável -. Tendo o domínio do letramento literário, ou seja, apropriando-se da literatura, compreendendo-a em seus sentidos e humanizando-se por meio dela.

REFERÊNCIAS

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

Lei 9.394/96 – Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional

Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio

Matriz de Referência ENEM 2018

COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. 2º ed. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

 

O Criador

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Um grito irrompeu da garganta do Homem.

Assustado, sentiu-se ameaçado por um rival oculto que gritava.

Havia perigo na propagação daquele brado.

Ao mesmo tempo que havia medo.


Um instante de silêncio. E um novo grito insurgiu.

Com mais temor e violência do que o primeiro.

Submeteu-se o Homem a esse Ser superior que gritava.

Nascia, então, Deus a sua imagem e semelhança.


Da Terra disforme e coberta de trevas, fez-se a luz;

Um firmamento separou semioticamente o céu do mar;

As plantas, os peixes, os pássaros e todas as espécies terrestres

Foram separadas e catalogadas em signos distintos.


A compreensão foi pela experiência.

O último ser nominado foi exatamente aquele que gritava:

O Homem, enfim, escutou sua própria voz,

Deus de um universo que lhe era completamente indiferente,

Percebeu-se, então, só.

As três mortes

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Meu corpo é carne e cadeias de carbonos

Decadente composto animal, que definha.

Meu espírito é o sentido das minhas ações,

O sopro da vivência dentro de mim.


Minha alma é meu espírito na vida do outro,

Minha vivência vivida fora de mim.

A vida é feita de corpo, alma e espírito.

Matéria, memória e sentido.

E a morte o apagamento desses três elementos.


A morte física abate o meu corpo

E cessa meu espírito.

Mas não seca a minha alma,

Que é coisa acabada na memória do outro.

E nela ainda vivo.


A morte estética morre no outro

Quando minha alma construída nele se apaga.

A morte definitiva é o apagamento dessa alma.

O pleno esquecimento.


Na consciência do outro, minha alma repousa,

Amorosamente enquanto memória vivida.

Morte não é o contrário da vida

Se existe memória, permaneço.