Plano de Ensino de Literatura para Ensino Médio

literatura

1.Base Legal

Esse projeto de ensino foi elaborado com base a legislação vigente da educação, da cultura e dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Segundo a Constituição Federal, são objetivos fundamentais da República: “I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (CF/88, Art. 1).  Além disso, a Constituição garante também ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (CF/88, Art. 5, IX).

Outro documento importante para formação do plano de ensino é a Lei 9.394/96, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em seu primeiro artigo, define que

A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

Além disso, diz que “a educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania” (LDB/96, Art. 22).

O Ensino Médio é a etapa final da educação básica e tem, segundo o artigo 35 da LDB, as seguintes finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Para a organização curricular da disciplina é utilizada a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é “um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BNCC, 2018, p.9). Esse documento organiza dez competências gerais da Educação Básica, são elas:

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
  3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
  4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
  5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
  6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
  8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
  9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
  10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (BNCC/2018, p. 11 e 12)

Dessa forma, é muito importante deixar claro o que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimento, habilidades, atitudes e valores) e o que devem “saber fazer” (a mobilização do conhecimento, a habilidade e atitudes). Espera-se, diante disso, que a escola seja capaz de formar jovens críticos, criativos, autônomos e responsáveis.

O foco da área das Linguagens e suas Tecnologias é a

Ampliação da autonomia, do protagonismo e da autoria nas práticas de diferentes linguagens; na identificação e na crítica aos diferentes usos das linguagens, explicitando seu poder no estabelecimento de relações; na apreciação e na participação em diversas manifestações artísticas e culturais; o no uso criativo das diversas mídias (BNCC/2018, p.472)

A literatura e a leitura devem ocupar o centro do trabalho no Ensino Médio, na área das linguagens:

Como linguagem artisticamente organizada, a literatura enriquece nossa percepção e nossa visão de mundo. Mediante arranjos especiais das palavras, ela cria um universo que nos permite aumentar nossa capacidade de ver e sentir. Nesse sentido, a literatura possibilita uma ampliação da nossa visão de mundo, ajuda-nos não só a ver mais, mas a colocar em questão muito do que estamos vendo e vivenciando. (BNCC/2018, p.500)

Sendo assim, o Plano de Ensino Integrado de Literatura busca ir ao encontro das bases legais, para garantir uma visão de mundo mais ampliada ao aluno e seu desenvolvimento como cidadão de pensamento crítico, responsável e autônomo. Espera-se, a partir dessa organização curricular, contribuir para a construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária. A compreensão da cultura do país e da identidade e autonomia da nação e dos seus cidadãos são fundamentais para isso. Exatamente esse será o eixo central das aulas de literatura e leitura.

  1. Matriz de Referência da Disciplina de Literatura

Objetivo Geral: Desenvolver, no aluno, o pensamento crítico, responsável e autônomo.  Para que, a partir disso, ele compreenda a cultura da sociedade em que vive e perceba-se como cidadão com domínio de sua identidade e com capacidade de construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária.

Competências mínimas da disciplina de Literatura

Segundo a matriz de referência de Linguagens, códigos e suas tecnologias, do ENEM, espera-se que o aluno seja capaz de:

 Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.

Além disso, “compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação”.

Para isso, é importante organizar mais didaticamente as competências, que serão divididas da seguinte forma: Macroliteratura, em que serão discutidos assuntos de amplitude social e de momento de produção; e Microliteratura, em que serão discutidos assuntos mais específicos da produção literária, da literariedade e dos sistemas simbólicos que constroem a obra literária.

Macroliteratura Microliteratura
1. Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

2. Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.

3. Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional

1. Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.

2.  Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.

3. Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.

  1. Letramento Literário

Para que o desenvolvimento desse projeto seja eficaz e contemple tudo o que se espera da disciplina de Literatura na escola, será utilizado o método do Letramento Literário. Maga Becker Soares, em Letramento: um tema em três gêneros (1998), diz que “trata-se não da aquisição da habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que estão a ela relacionadas” (COSSON, 2018, p.11). Isto é, a compreensão do mundo e de si mesmo, a organização da sociedade, tudo isso é feito com primazia pela escrita. Sendo assim, a literatura cumpre, na escola, um papel humanizador porque dá sentido aos saberes. Enquanto a alfabetização é somente a aquisição da língua como ferramenta de comunicação.

Segundo Rildo Cosson, em Letramento Literário (2018),

É fundamental que se coloque como centro das práticas literárias na escola a leitura efetiva dos textos, e não as informações das disciplinas que ajudam a constituir essas leituras, tais como a crítica, a teoria ou a história literária. Essa leitura também não pode ser feita de forma assistemática e em nome de um prazer absoluto de ler. Ao contrário, é fundamental que seja organizada segundo os objetivos da formação do aluno, compreendendo que a literatura tem um papel a cumprir no âmbito escolar” (p.23)

Esse pensamento escolariza a literatura, pois ela deixa de ser apenas um prazer e passa a ser meio indispensável para a formação do sujeito. A partir disso, a interpretação passa a ser um mecanismo fundamental para o letramento literário. O domínio de técnicas e de uma análise sistemática revelam que a leitura não nos provoca sentimentos, mas, sim, sentidos do texto. Então, isso permite que o leitor compreenda melhor o livro, potencializando e intensificando a ‘magia’ da literatura.

O desenvolvimento do letramento será feito em três etapas:

“A primeira etapa, que vamos chamar de ‘antecipação’, consiste nas várias operações que o leitor realiza antes de penetrar no texto. (…) A segunda etapa é a ‘decifração’. Entramos no texto através das letras e das palavras. (…) Denominamos a terceira etapa de ‘interpretação’ (…) as relações estabelecidas pelo leitor quando processa o texto” (COSSON, 2018, p.40)

Essa ideia coloca a literatura como o centro da aprendizagem, não como meio para outros saberes e habilidades, nem como objeto histórico, teórico ou crítico. Assim é possível contemplar o que se espera da formação do sujeito na escola – um cidadão autônomo, crítico e responsável -. Tendo o domínio do letramento literário, ou seja, apropriando-se da literatura, compreendendo-a em seus sentidos e humanizando-se por meio dela.

REFERÊNCIAS

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

Lei 9.394/96 – Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional

Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio

Matriz de Referência ENEM 2018

COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. 2º ed. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

 

Anúncios

O diagnóstico do letramento por meio da literatura

Disciplina: Literatura

Anos: 1º, 2º e 3º

Objetivo geral do primeiro trimestre: Diagnosticar os níveis de conhecimento literário dos alunos

Objetivos específicos: Desenvolver estratégias de diagnósticos de níveis de conhecimento dos estudantes na disciplina de Literatura; potencializar o diálogo sobre os temas propostos em sala de aula, a partir desses diagnósticos, buscando uma construção colaborativa de conhecimento.

sthem-capa-34-1

Introdução:

Segundo o PNAD (Plano Nacional de Amostra Domiciliar), a taxa de analfabetismo no Brasil foi de 7,2% em 2016, o que correspondia a 11,8 milhões de analfabetos. Esse número é maior que a população inteira do Rio Grande do Sul (11,3 milhões de habitantes). De acordo com o IBGE, analfabeta “é a pessoa que não sabe ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece”.

No entanto, há outra questão muito mais difícil de se diagnosticar numa pesquisa de caráter objetivo: o letramento. Segundo Magda Soares, pesquisadora da Faculdade de Educação da UFMG, letramento é “o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita” (p.18). Ou seja, o sujeito alfabetizado é aquele que adquire a “tecnologia do ler e escrever” (18), enquanto o letrado apropria-se dessas habilidades.

Alfabetização Letramento
Aquisição da tecnologia do ler e escrever Apropriação da leitura e da escrita

Normalmente, dentro do período da infância e da juventude do sujeito, há uma divisão em quatro níveis de letramento na escola: o primeiro corresponde ao processo de alfabetização, quando se consegue atingir a construção e a leitura de um bilhete simples. O segundo corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental, quando se atinge ao mínimo funcional, ou a alfabetização funcional. O terceiro é desenvolvido nos anos finais do ensino fundamental, em que o estudante tem acesso a diferentes gêneros textuais e assim amplia sua leitura do mundo. Já no último ciclo da educação básica, a Literatura vem trazer a liberdade de pensamento do sujeito a partir dos textos. É por meio dessa arte que se percebe a arbitrariedade dos discursos dominantes que povoam o imaginário coletivo como verdades absolutas. E diante disso a literatura revela a imensidão de possibilidades que constroem o mundo e o sujeito. Uma de suas funções, no ensino médio, é o letramento possível para que o sujeito se torne um livre pensador. E assim ter competência discursiva para interagir com os inúmeros gêneros e temas que povoam a formação da humanidade.

não gosto de ler

Problema:                          

Mesmo os estudantes estando no mesmo período de letramento, ainda assim, não necessariamente estarão no mesmo nível.  Os motivos são vários: diferentes formações escolares, constantes reprovações, dificuldades na aprendizagem, etc. Porém, antes de se trabalhar algum tipo de nivelamento, é preciso identificar esses alunos e, por meio de avaliações, perceber que tipo de trabalho deve ser efetuado para sua construção de conhecimento.

Diagnóstico – critérios

Antes de tudo, é importante desconstruir a ideia de avaliação como um julgamento punitivo, isto é, algo que vai aprovar ou reprovar o estudante. Se essa premissa for considerada para a educação, haverá um desvio de rota: dentro dessas condições, o aluno estuda para passar de ano, não para construir conhecimento. Prefiro pensar na avaliação como um diagnóstico dessa construção de conhecimento. Assim como um médico precisa de exames para compreender a enfermidade do paciente, o professor precisa de certa materialidade para perceber as dificuldades do aluno.

Para fazer esse diagnóstico, a escola normalmente estabelece três critérios: atitudinal, procedimental e conceitual.

Critério Conceitual: a base teórica aprendida. É por meio dos conceitos que o sujeito compreende o mundo. E o domínio e a apropriação dos conceitos pelos alunos são a bagagem para sua formação.

Aqui é importante compreender que essa apropriação conceitual em nada se parece com o ato de decorar conteúdos. O estudante precisa dominar esses conceitos para conseguir dialogar sobre eles, inclusive para refutá-los.

Critério procedimental: a produção em decorrência da teoria aprendida. Esse critério trabalha a ideia de aprender a fazer, isto é, o estudante precisa interagir e dialogar com os textos trabalhados. Assim, é por meio da produção que ele vai se inserir no diálogo e consequentemente aprimorar habilidades discursivas.

Critério atitudinal: a interação do sujeito durante o processo de aprendizagem com os outros agentes de construção de conhecimento, com o ambiente e com o objeto de estudo. Dentro de uma construção coletiva de conhecimento, como a que acontece em sala de aula, o estudante precisa ter uma conduta colaborativa para seu progresso e para o progresso do coletivo.

Conceitual Procedimental Atitudinal
Compreensão Produção Interação

Conclusão:

Evidentemente, existem inúmeras outras formas de se organizar uma aula. No entanto, parece-me ser urgente resolver a questão do diagnóstico do letramento dos estudantes da escola básica. Para isso, a Literatura precisa se colocar como um agente fundamental nessa construção. Espera-se, a partir dessa organização, qualificar a leitura e a compreensão de mundo e de si mesmo do aluno. Assim, o objetivo maior desse plano é pensar em critérios para diagnosticar em que momento do seu letramento os estudantes do ensino médio se encontram, para, a partir disso, desenvolver um nivelamento almejando a mais alta potência na construção de conhecimento.

Fontes:

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo.html, acesso em 03/04/18

SOARES, Magda Becker. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

http://www.redalyc.org/html/873/87313722003/, acesso em 04/04/18

http://br-ie.org/pub/index.php/wcbie/article/view/1938/1698, acesso em 07/04/18