Liberdade

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Desperta náufrago o homem consciente

No féretro barco de sua breve existência.

Mesmo que apenas sob as neblinas simbólicas

Consiga sentir as manifestações da natureza,

Ainda assim, respira fundo.

Suspira, o homem profundo, às ausências.


Do porto seguro, vaga lembrança,

Uma onda que bate no velho lenho.

Daquele amor, uma fagulha,

Um ocaso no seu sentimento;

Dos ideais, um içar de âncora,

Um suposto desprendimento.

 O homem à deriva vaga

Nas ondas do seu pensamento.


A liberdade é esse náufrago numa noite sem estrelas.

É o breu do universo que se vê no reflexo do oceano.

É o cheiro fresco, livre e puro da vastidão

Que sufoca o homem sem destino.

A liberdade é um barco à deriva

Na imensidão de lugar nenhum.

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O Coveiro

“Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (JOÃO 12:24).

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O mundo é um cemitério de ideias

Onde germina a erva da semente morta,

O advento da existência sem esperança.


Somente no pensamento a ideia vive

Onde, sublime, é irrealizável

Um grão de trigo infecundo e inútil.


Eu sou um coveiro de ideias,

O semeador da essência humana:

É na obra que a ideia morre ao realizar-se.

É a vida o fruto dessa falência.

O Domesticador

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Um lago turvo de águas brutas

Corre pelas galerias do inconsciente humano:

O sexo e a morte pulsam nas correntezas do recalque.


O Homem, alheio ao borbulhar vulcânico de sua psique,

Cria regras castradoras contra a libido,

Sob o advento da civilização pacífica.


Domesticado, rejeita sua própria natureza,

E como um animal domado arranha a própria pele

Em busca de dor e de prazer secretos.


Porém não compreende que essa represa

Transborda, rompe, rebenta

Num eterno retorno às pulsões primordiais.


Não há nada mais próximo da morte do que o sexo

E não há nada mais próximo do sentido da vida

Do que a própria morte.

O Criador

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Um grito irrompeu da garganta do Homem.

Assustado, sentiu-se ameaçado por um rival oculto que gritava.

Havia perigo na propagação daquele brado.

Ao mesmo tempo que havia medo.


Um instante de silêncio. E um novo grito insurgiu.

Com mais temor e violência do que o primeiro.

Submeteu-se o Homem a esse Ser superior que gritava.

Nascia, então, Deus a sua imagem e semelhança.


Da Terra disforme e coberta de trevas, fez-se a luz;

Um firmamento separou semioticamente o céu do mar;

As plantas, os peixes, os pássaros e todas as espécies terrestres

Foram separadas e catalogadas em signos distintos.


A compreensão foi pela experiência.

O último ser nominado foi exatamente aquele que gritava:

O Homem, enfim, escutou sua própria voz,

Deus de um universo que lhe era completamente indiferente,

Percebeu-se, então, só.

As três mortes

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Meu corpo é carne e cadeias de carbonos

Decadente composto animal, que definha.

Meu espírito é o sentido das minhas ações,

O sopro da vivência dentro de mim.


Minha alma é meu espírito na vida do outro,

Minha vivência vivida fora de mim.

A vida é feita de corpo, alma e espírito.

Matéria, memória e sentido.

E a morte o apagamento desses três elementos.


A morte física abate o meu corpo

E cessa meu espírito.

Mas não seca a minha alma,

Que é coisa acabada na memória do outro.

E nela ainda vivo.


A morte estética morre no outro

Quando minha alma construída nele se apaga.

A morte definitiva é o apagamento dessa alma.

O pleno esquecimento.


Na consciência do outro, minha alma repousa,

Amorosamente enquanto memória vivida.

Morte não é o contrário da vida

Se existe memória, permaneço.