Didática e tecnologias na escola do século XXI

1. tecnologia-na-sala-de-aula

A escola, como uma instituição formadora na sociedade, não pode ficar alheia aos avanços da tecnologia. Para isso é preciso inserir todos os seus agentes nesse universo. Isto é, não apenas professores, mas também os estudantes. Marc Prensky, educador norte-americano, diz que, no mundo de hoje, há dois tipos de pessoas: os nativos digitais e os imigrantes digitais. Os primeiros são aqueles que já nascem no ambiente cercado de tecnologias digitais; enquanto os segundos ainda precisam se inserir e incorporar essas novas tecnologias. Dentro das escolas, esses dois tipos de sujeitos convivem: sendo boa parte dos professores integrantes do grupo de imigrantes digitais e a totalidade dos alunos sendo nativos digitais. Dessa forma, um dos grandes dilemas da escola do século XXI é construir conhecimento conectando esses dois tipos de sujeitos, para que se desenvolva uma educação significativa para o seu tempo.

No entanto, é importante compreender que tecnologia é tudo aquilo que auxilia o ser humano em sua vida, por exemplo: o lápis, o caderno, o martelo, o computador, o celular, tudo isso é tecnologia. Assim, pode-se dizer que tudo que é conhecimento, processo, método humano e que se aplica a uma determinada atividade, pode ser considerado tecnologia. Ela pode ser classificada em três tipos: físicas, organizadoras e simbólicas. As físicas são os instrumentos materiais, como caneta, livro, telefone, computador; as organizadoras são as de relação entre o sujeito e o mundo, os sistemas organizacionais, as séries, turmas e a escola; e as simbólicas sãos as linguagens, os códigos, os signos.

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Com base nisso, pode-se observar que a escola, desde sua origem, usa tecnologias, mesmo que as físicas sejam o quadro negro, o giz, o caderno e a caneta; que as organizadoras sejam as filas de estudantes, todos voltados para um professor, centralizado na sala de aula; e as simbólicas sejam a cópia de textos, ditados e notas. Nesse ponto já é possível perceber que, mesmo com todo o avanço da informática, que se enquadra muitas vezes na tecnologia física – o uso de aparelhos de multimídias, tabletes, celulares -, as organizadoras e simbólicas parecem estagnadas. Isso evidencia uma falsa sensação de progresso nas escolas ao tratarem de tecnologias, pois a instituição pode se equipar com os mais modernos aparelhos do mercado, mas se não evoluir também nas questões organizacionais e simbólicas, o processo estará incompleto.

“Atualmente o professor não é a única fonte de aprendizagem. (…) O professor deixou de ser o responsável único e exclusivo de informações, porque os alunos estão conectados a televisão, canais a cabo, internet, multimídia” (TIBA, 2006, p. 28). Isso quer dizer que esse profissional precisa se reinventar, provavelmente desenvolvendo, não só o aprendizado do universo digital, como também um aprimoramento nas tecnologias simbólicas e organizadoras. Essa atualização na profissão é um processo que necessita uma leitura muito eficaz do contexto atual. Pois não adianta apenas a modernização das tecnologias físicas, se as organizadoras e simbólicas permanecerem paradas. Assim, mesmo um professor sendo um imigrante digital pode se valer de simples atualizações no seu sistema didático para se inserir na contemporaneidade. Dessa forma, é possível equilibrar a disputa pelo interesse do aluno com as tecnologias de informação e conhecimento fora da escola.

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Para isso, o professor precisa, antes de tudo, compreender o contexto de seu trabalho. Algumas escolas não possuem aparelhos digitais suficientes para uma transformação tecnológica física, mas há outras possibilidades de mudanças a partir das organizadoras e simbólicas. Uma simples reconfiguração na sala de aula, por exemplo, já modifica a relação do aluno com a aprendizagem. No entanto, é importante que o profissional saiba dominar a tecnologia que será utilizada em sua aula. Ou seja, é importante valer-se do bom senso, porque, por mais bem-intencionado esteja o professor, se não souber dominar as ferramentas de sua aula, pode causar um efeito contrário ao esperado. Enquanto, uma aula simples e segura poderia funcionar muito melhor.

Outro ponto fundamental para compreender a educação no mundo contemporâneo é a diferença entre informação e conhecimento. Cortês (2008) vale-se da seguinte metáfora para explicar isso, “… o dado é um tijolo, a informação é uma parede construída por vários tijolos e o conhecimento é um cômodo construído a partir da organização e correto relacionamento de várias paredes”. Diante dessa analogia, pode-se perceber que o conhecimento é a parte da educação que dá o sentido da aprendizagem. Parece ser esse o papel da escola na atualidade, pois os alunos têm acesso aos dados e as informações do mundo através, principalmente, da internet, no entanto é preciso ensiná-lo a construir sentido com esses elementos, ou seja, é necessário ensinar a construir conhecimento.

4. tijolosbaixa

Dentro dessa perspectiva contemporânea da escola, em que se torna não só um lugar para adquirir informações e dados, mas, principalmente para construir conhecimento, a postura do professor e do estudante também precisam ser revistas. O professor não é mais o detentor exclusivo da palavra, desenvolvendo a aula como uma palestra, da mesma forma que o estudante não tem mais a posição passiva e receptora das informações. São, sim, ambos colaboradores mútuos para a construção de conhecimento, ou seja, ambos devem comportar-se em aula proativamente. Ao atingir esse patamar, a escola estará desenvolvendo não só ensino e aprendizado, mas inteligência e sabedoria, pois, segundo Libâneo (1994), a aprendizagem somente acontece com a assimilação ativa e apropriação do conhecimento.

Dessa forma, principalmente o professor precisa entender o mecanismo e o funcionamento da educação contemporânea para conseguir desenvolver seu trabalho de forma eficaz. Provavelmente, o primeiro passo seja a identificação dos agentes da sala de aula: estudante e professor vivem, em grande escala, um choque de gerações, os chamados nativos digitais, praticamente a totalidade dos jovens, e os imigrantes digitais, boa parte dos adultos. Assim, a relação de ambos com as tecnologias é muito distinta e o professor pode, muitas vezes, apenas transpor a aula tradicional para o universo digital, com a falsa ideia de atualização. Por isso, é importante saber que há três tipos diferentes de tecnologias: as físicas, as organizadoras e as simbólicas. Isto é, pode-se construir uma aula extremamente contemporânea usando o mínimo de tecnologia digital, apenas com a clareza do projeto de ensino, buscando construir conhecimento juntamente com o estudante proativo; e da criatividade do educador, ao valer-se das diversas tecnologias possíveis no seu contexto de trabalho, aplicando-as com excelência.

PIROZZI,Giani Peres. Tecnologia ou metodologia? O grande desafio para o século XXI.

TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: Novos paradigmas na educação. São Paulo: Integrare Editora, 2006.

PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants.Nativos digitais, imigrantes digitais. Tradução de Roberta de Moraes Jesus de Souza. NCB University Press, Vol. 9 No. 5, Outubro, 2001. Disponível em: http://api.ning.com/files/EbPsZU1BsEN0i*42tYn-d650YRCrrtIi8XBkX3j8*2s_/ Texto_1_Nativos_Digitais_Imigrantes_Digitais.pdf.  Acesso em 30/07/2019

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Plano de Ensino de Literatura para Ensino Médio

literatura

1.Base Legal

Esse projeto de ensino foi elaborado com base a legislação vigente da educação, da cultura e dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Segundo a Constituição Federal, são objetivos fundamentais da República: “I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (CF/88, Art. 1).  Além disso, a Constituição garante também ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (CF/88, Art. 5, IX).

Outro documento importante para formação do plano de ensino é a Lei 9.394/96, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em seu primeiro artigo, define que

A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

Além disso, diz que “a educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania” (LDB/96, Art. 22).

O Ensino Médio é a etapa final da educação básica e tem, segundo o artigo 35 da LDB, as seguintes finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Para a organização curricular da disciplina é utilizada a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é “um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BNCC, 2018, p.9). Esse documento organiza dez competências gerais da Educação Básica, são elas:

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
  3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
  4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
  5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
  6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
  8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
  9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
  10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (BNCC/2018, p. 11 e 12)

Dessa forma, é muito importante deixar claro o que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimento, habilidades, atitudes e valores) e o que devem “saber fazer” (a mobilização do conhecimento, a habilidade e atitudes). Espera-se, diante disso, que a escola seja capaz de formar jovens críticos, criativos, autônomos e responsáveis.

O foco da área das Linguagens e suas Tecnologias é a

Ampliação da autonomia, do protagonismo e da autoria nas práticas de diferentes linguagens; na identificação e na crítica aos diferentes usos das linguagens, explicitando seu poder no estabelecimento de relações; na apreciação e na participação em diversas manifestações artísticas e culturais; o no uso criativo das diversas mídias (BNCC/2018, p.472)

A literatura e a leitura devem ocupar o centro do trabalho no Ensino Médio, na área das linguagens:

Como linguagem artisticamente organizada, a literatura enriquece nossa percepção e nossa visão de mundo. Mediante arranjos especiais das palavras, ela cria um universo que nos permite aumentar nossa capacidade de ver e sentir. Nesse sentido, a literatura possibilita uma ampliação da nossa visão de mundo, ajuda-nos não só a ver mais, mas a colocar em questão muito do que estamos vendo e vivenciando. (BNCC/2018, p.500)

Sendo assim, o Plano de Ensino Integrado de Literatura busca ir ao encontro das bases legais, para garantir uma visão de mundo mais ampliada ao aluno e seu desenvolvimento como cidadão de pensamento crítico, responsável e autônomo. Espera-se, a partir dessa organização curricular, contribuir para a construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária. A compreensão da cultura do país e da identidade e autonomia da nação e dos seus cidadãos são fundamentais para isso. Exatamente esse será o eixo central das aulas de literatura e leitura.

  1. Matriz de Referência da Disciplina de Literatura

Objetivo Geral: Desenvolver, no aluno, o pensamento crítico, responsável e autônomo.  Para que, a partir disso, ele compreenda a cultura da sociedade em que vive e perceba-se como cidadão com domínio de sua identidade e com capacidade de construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária.

Competências mínimas da disciplina de Literatura

Segundo a matriz de referência de Linguagens, códigos e suas tecnologias, do ENEM, espera-se que o aluno seja capaz de:

 Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.

Além disso, “compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação”.

Para isso, é importante organizar mais didaticamente as competências, que serão divididas da seguinte forma: Macroliteratura, em que serão discutidos assuntos de amplitude social e de momento de produção; e Microliteratura, em que serão discutidos assuntos mais específicos da produção literária, da literariedade e dos sistemas simbólicos que constroem a obra literária.

Macroliteratura Microliteratura
1. Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

2. Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.

3. Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional

1. Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.

2.  Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.

3. Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.

  1. Letramento Literário

Para que o desenvolvimento desse projeto seja eficaz e contemple tudo o que se espera da disciplina de Literatura na escola, será utilizado o método do Letramento Literário. Maga Becker Soares, em Letramento: um tema em três gêneros (1998), diz que “trata-se não da aquisição da habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que estão a ela relacionadas” (COSSON, 2018, p.11). Isto é, a compreensão do mundo e de si mesmo, a organização da sociedade, tudo isso é feito com primazia pela escrita. Sendo assim, a literatura cumpre, na escola, um papel humanizador porque dá sentido aos saberes. Enquanto a alfabetização é somente a aquisição da língua como ferramenta de comunicação.

Segundo Rildo Cosson, em Letramento Literário (2018),

É fundamental que se coloque como centro das práticas literárias na escola a leitura efetiva dos textos, e não as informações das disciplinas que ajudam a constituir essas leituras, tais como a crítica, a teoria ou a história literária. Essa leitura também não pode ser feita de forma assistemática e em nome de um prazer absoluto de ler. Ao contrário, é fundamental que seja organizada segundo os objetivos da formação do aluno, compreendendo que a literatura tem um papel a cumprir no âmbito escolar” (p.23)

Esse pensamento escolariza a literatura, pois ela deixa de ser apenas um prazer e passa a ser meio indispensável para a formação do sujeito. A partir disso, a interpretação passa a ser um mecanismo fundamental para o letramento literário. O domínio de técnicas e de uma análise sistemática revelam que a leitura não nos provoca sentimentos, mas, sim, sentidos do texto. Então, isso permite que o leitor compreenda melhor o livro, potencializando e intensificando a ‘magia’ da literatura.

O desenvolvimento do letramento será feito em três etapas:

“A primeira etapa, que vamos chamar de ‘antecipação’, consiste nas várias operações que o leitor realiza antes de penetrar no texto. (…) A segunda etapa é a ‘decifração’. Entramos no texto através das letras e das palavras. (…) Denominamos a terceira etapa de ‘interpretação’ (…) as relações estabelecidas pelo leitor quando processa o texto” (COSSON, 2018, p.40)

Essa ideia coloca a literatura como o centro da aprendizagem, não como meio para outros saberes e habilidades, nem como objeto histórico, teórico ou crítico. Assim é possível contemplar o que se espera da formação do sujeito na escola – um cidadão autônomo, crítico e responsável -. Tendo o domínio do letramento literário, ou seja, apropriando-se da literatura, compreendendo-a em seus sentidos e humanizando-se por meio dela.

REFERÊNCIAS

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

Lei 9.394/96 – Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional

Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio

Matriz de Referência ENEM 2018

COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. 2º ed. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

 

O diagnóstico do letramento por meio da literatura

Disciplina: Literatura

Anos: 1º, 2º e 3º

Objetivo geral do primeiro trimestre: Diagnosticar os níveis de conhecimento literário dos alunos

Objetivos específicos: Desenvolver estratégias de diagnósticos de níveis de conhecimento dos estudantes na disciplina de Literatura; potencializar o diálogo sobre os temas propostos em sala de aula, a partir desses diagnósticos, buscando uma construção colaborativa de conhecimento.

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Introdução:

Segundo o PNAD (Plano Nacional de Amostra Domiciliar), a taxa de analfabetismo no Brasil foi de 7,2% em 2016, o que correspondia a 11,8 milhões de analfabetos. Esse número é maior que a população inteira do Rio Grande do Sul (11,3 milhões de habitantes). De acordo com o IBGE, analfabeta “é a pessoa que não sabe ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece”.

No entanto, há outra questão muito mais difícil de se diagnosticar numa pesquisa de caráter objetivo: o letramento. Segundo Magda Soares, pesquisadora da Faculdade de Educação da UFMG, letramento é “o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita” (p.18). Ou seja, o sujeito alfabetizado é aquele que adquire a “tecnologia do ler e escrever” (18), enquanto o letrado apropria-se dessas habilidades.

Alfabetização Letramento
Aquisição da tecnologia do ler e escrever Apropriação da leitura e da escrita

Normalmente, dentro do período da infância e da juventude do sujeito, há uma divisão em quatro níveis de letramento na escola: o primeiro corresponde ao processo de alfabetização, quando se consegue atingir a construção e a leitura de um bilhete simples. O segundo corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental, quando se atinge ao mínimo funcional, ou a alfabetização funcional. O terceiro é desenvolvido nos anos finais do ensino fundamental, em que o estudante tem acesso a diferentes gêneros textuais e assim amplia sua leitura do mundo. Já no último ciclo da educação básica, a Literatura vem trazer a liberdade de pensamento do sujeito a partir dos textos. É por meio dessa arte que se percebe a arbitrariedade dos discursos dominantes que povoam o imaginário coletivo como verdades absolutas. E diante disso a literatura revela a imensidão de possibilidades que constroem o mundo e o sujeito. Uma de suas funções, no ensino médio, é o letramento possível para que o sujeito se torne um livre pensador. E assim ter competência discursiva para interagir com os inúmeros gêneros e temas que povoam a formação da humanidade.

não gosto de ler

Problema:                          

Mesmo os estudantes estando no mesmo período de letramento, ainda assim, não necessariamente estarão no mesmo nível.  Os motivos são vários: diferentes formações escolares, constantes reprovações, dificuldades na aprendizagem, etc. Porém, antes de se trabalhar algum tipo de nivelamento, é preciso identificar esses alunos e, por meio de avaliações, perceber que tipo de trabalho deve ser efetuado para sua construção de conhecimento.

Diagnóstico – critérios

Antes de tudo, é importante desconstruir a ideia de avaliação como um julgamento punitivo, isto é, algo que vai aprovar ou reprovar o estudante. Se essa premissa for considerada para a educação, haverá um desvio de rota: dentro dessas condições, o aluno estuda para passar de ano, não para construir conhecimento. Prefiro pensar na avaliação como um diagnóstico dessa construção de conhecimento. Assim como um médico precisa de exames para compreender a enfermidade do paciente, o professor precisa de certa materialidade para perceber as dificuldades do aluno.

Para fazer esse diagnóstico, a escola normalmente estabelece três critérios: atitudinal, procedimental e conceitual.

Critério Conceitual: a base teórica aprendida. É por meio dos conceitos que o sujeito compreende o mundo. E o domínio e a apropriação dos conceitos pelos alunos são a bagagem para sua formação.

Aqui é importante compreender que essa apropriação conceitual em nada se parece com o ato de decorar conteúdos. O estudante precisa dominar esses conceitos para conseguir dialogar sobre eles, inclusive para refutá-los.

Critério procedimental: a produção em decorrência da teoria aprendida. Esse critério trabalha a ideia de aprender a fazer, isto é, o estudante precisa interagir e dialogar com os textos trabalhados. Assim, é por meio da produção que ele vai se inserir no diálogo e consequentemente aprimorar habilidades discursivas.

Critério atitudinal: a interação do sujeito durante o processo de aprendizagem com os outros agentes de construção de conhecimento, com o ambiente e com o objeto de estudo. Dentro de uma construção coletiva de conhecimento, como a que acontece em sala de aula, o estudante precisa ter uma conduta colaborativa para seu progresso e para o progresso do coletivo.

Conceitual Procedimental Atitudinal
Compreensão Produção Interação

Conclusão:

Evidentemente, existem inúmeras outras formas de se organizar uma aula. No entanto, parece-me ser urgente resolver a questão do diagnóstico do letramento dos estudantes da escola básica. Para isso, a Literatura precisa se colocar como um agente fundamental nessa construção. Espera-se, a partir dessa organização, qualificar a leitura e a compreensão de mundo e de si mesmo do aluno. Assim, o objetivo maior desse plano é pensar em critérios para diagnosticar em que momento do seu letramento os estudantes do ensino médio se encontram, para, a partir disso, desenvolver um nivelamento almejando a mais alta potência na construção de conhecimento.

Fontes:

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo.html, acesso em 03/04/18

SOARES, Magda Becker. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

http://www.redalyc.org/html/873/87313722003/, acesso em 04/04/18

http://br-ie.org/pub/index.php/wcbie/article/view/1938/1698, acesso em 07/04/18

Plano de aula: A Torre de Babel: o poder da linguagem

Disciplina: Literatura

Ano: 1º ano do Ensino Médio

Objetivos: Entender, a partir do texto base, o que é a linguagem e como e ela é constituída.

Conteúdos:

– O que é linguagem;

– Fatores constitutivos da linguagem

Duração: Três períodos

Material: Texto 1 – A Torre de Babel (Gênesis 11: 1-9)

Primeiro período

Torre da Babel

1- Exponha claramente o projeto de estudo dessa aula.

Não se esqueça de que seu aluno é seu parceiro na construção da aula. Então, dessa forma, ele precisa saber claramente quais são os objetivos, os conteúdos e a intenção do seu projeto. A ficha acima pode ser reproduzida para sua turma, pois é importante para delimitar uma referência.

2 – A contação do texto.

Uma das práticas que, no avançar das etapas da educação, acaba se perdendo é a contação de histórias. Durante os anos iniciais, inúmeros são os projetos de “hora do conto’ e leitura oral de textos. No final da etapa básica de educação, o jovem parece ter um contato um tanto burocrático com as obras literárias. Possivelmente, esse distanciamento pedagógico com a imaginação seja fruto da ausência desses momentos lúdicos em sala de aula. Até como tentativa de resgate desse exercício, é interessante que você conte o texto indicado, mas procure não ler inteiramente. Essa contação reaviva a memória do aluno que leu o texto previamente e ainda insere no contexto aquele que, por ventura, não tenha lido.

Outra questão importante que deve ser esclarecida previamente é quanto ao ponto de vista em que o texto será trabalhado. Por se tratar de um capítulo bíblico e, como sabemos, isso envolve diretamente o pensamento religioso de muitas pessoas, você precisa indicar o viés ao qual a análise vai seguir. A literatura não trabalha com dogmatismos, crenças e doutrinas, mas sim com investigação da estética, da temática e das estratégias discursivas que produzem determinados efeitos de sentido nos textos. Assim, o que está em jogo nesse plano não é o julgamento das ações dos sujeitos desse capítulo, mas como ele se desenrola, colocando em evidência o poder da linguagem (o objeto de estudo dessa aula).

Por fim, lembre-se que antes do capítulo da Torre de Babel, acontece o episódio da Arca de Noé e o grande dilúvio. Antes de contar o texto planejado para essa aula, contextualize a turma com essa informação. Isso será muito importante, pois você cria, nesse momento, um “gancho” para traçar um paralelo entre duas ações extremas de Deus para com os homens; o dilúvio, para exterminá-los; e a confusão da linguagem, para espalhá-los. Exatamente, a partir dessa relação, você pode construir a aula sobre o poder da linguagem.

3 – O problema:

Após a contação da história, você precisa direcionar o diálogo na sala de aula para o recorte temático desejado. Isso pode ser feito com uma simples questão:

“Vocês perceberam que Deus agiu de forma diferente na segunda vez que interferiu no andamento da humanidade. Enquanto na primeira vez precisou de uma grande catástrofe, um dilúvio; na segunda vez, apenas teve que confundir a linguagem. Diante disso, poderia a linguagem ser tão ou mais poderosa, nesse caso, do que o dilúvio”?

Dica: Cuide o tempo de sua aula. A contação da história, a problematização e esse primeiro debate, provavelmente, ocupa em torno de 20 minutos do período.

4 – O que é linguagem?

Nesse momento, inicia-se a segunda parte de sua aula: a teorização do assunto.

Depois de ter conversado sobre a importância e o poder da linguagem, chega o momento de entender o que é linguagem. Para isso, você precisa de um referencial teórico. Utilizaremos aqui o capítulo Comunicação animal e linguagem humana, do “Problemas de Linguística Geral I”, de Émile Benveniste. É importante que você diga isso aos seus alunos, pois eles precisam, pelo menos, ter conhecimento das referências que norteiam as aulas.

Benveniste, nesse capítulo, trabalha a diferença entre a linguagem humana e a comunicação animal. Para isso, ele usa um clássico estudo sobre a comunicação das abelhas. Introduza o assunto contando isso.

“Uma abelha operária colhedora, encontrando, por exemplo, durante o voo uma solução açucarada por meio da qual cai numa armadilha, imediatamente se alimenta. Enquanto se alimenta, o experimentador cuida em marcá-la. A abelha volta depois à sua colmeia. Alguns instantes mais tarde, vê-se chegar ao mesmo lugar um grupo de abelhas entre as quais não se encontra a abelha marcada e que vêm todas da mesma colmeia. Esta deve haver prevenido as companheiras. É realmente necessário que estas hajam sido informadas com precisão” (BENVENISTE, 1995, p.61)

Isto é, provavelmente essa abelha que encontrou a solução açucarada contou para as demais de sua colmeia a localização do alimento. Mas como isso é feito?

“O comportamento da abelha que volta depois de uma descoberta de alimento. É imediatamente rodeada pelas companheiras no meio de grande efervescência, e essas estendem na sua direção as antenas para recolher o pólen de que vem carregada, ou absorvem o néctar que vomita. Depois, seguida das companheiras, executa danças. É este momento essencial do processo e o próprio ato de comunicação. (…) Após as danças, uma ou mais abelhas deixam a colmeia e partem diretamente para a fonte que a primeira havia visitado” (BENVENISTE, 1995, p.61)

Ou seja, as abelhas usam determinada ‘dança’ para transmitir a mensagem da localização do alimento. Essa é a comunicação delas. No entanto, será que é assim também com os seres humanos, modificando somente o grau de complexidade dos elementos que compõem a comunicação?

Benveniste explica:

 “A diferença capital aparece também na situação em que se dá a comunicação. A mensagem das abelhas não provoca nenhuma resposta do ambiente, mas apenas uma certa conduta. Isso significa que as abelhas não conhecem o diálogo, que é a condição da linguagem humana” (65)

Essa conduta é a reação instintiva da abelha. Ela recebe a mensagem e executa uma ação. Com os seres humanos é diferente: a comunicação acontece e ela gera uma resposta racional, que vai possibilitar o diálogo.

Assim, podemos agora definir o que é linguagem:

A LINGUAGEM HUMANA é um sistema complexo de comunicação, com capacidade de dizer tudo e, diante disso, provocar uma resposta do ambiente – o diálogo.

5 – Conclusão:

No texto “A Torre de Babel”, Deus confunde a linguagem humana. No entanto ele não impede que os sujeitos produzam mensagens, mas, ao quebrar algum elemento interno da linguagem, elimina a possibilidade de compreensão do que é dito. Assim, os seres humanos de Babel perdem aquilo que é diferencial da nossa raça – a possibilidade do diálogo. Dessa forma, Deus atinge seu objetivo de espalhar os humanos pelo mundo, sem ter que provocar nenhuma catástrofe nem matar ninguém. Isso mostra quanto é poderosa a nossa linguagem.


Segundo Período

linguagem

1 – Decifrando a estratégia de Deus:

Essa aula tem um propósito investigativo, ou seja, não basta simplesmente aceitar a ideia do poder da linguagem sem entender como funciona seu mecanismo interno. Para isso, o texto base precisa ser trabalhado dentro de sua materialidade, com o objetivo de perceber onde, precisamente, aconteceu a confusão da linguagem, que impediu o diálogo entre as pessoas de Babel. Dessa forma, vamos usar dois versículos desse capítulo para essa compreensão:

11:1 “Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras”.

11:7 “Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro”.

Nesse ponto, você pode gerar o problema para o estudo desse momento da aula: “língua” e “linguagem” são usadas no mesmo texto para produzir sentidos diferentes. Qual seria, então, a diferença entre “língua” e “linguagem”? E onde, especificamente, Deus agiu para quebrar o sistema de comunicação dos homens?

2 – Fatores constitutivos de linguagem:

Mais uma vez você precisa ter um domínio teórico para desenvolver, de forma eficaz, a didática dessa aula. Assim, o referencial utilizado aqui é o artigo JAKOBSON, Roman. Linguística e Poética, de Roman Jakobson. Não se esqueça de referi-lo aos alunos.

Assim, para entender onde, de fato, Deus agiu para quebrar o sistema de linguagem humana, é preciso compreender como esse sistema é constituído.

Jacobson diz que os fatores constitutivos de toda comunicação são desenvolvidos da seguinte forma:

“O REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere (…), apreensível pelo destinatário; um CÓDIGO total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (ou, em outras palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); e finalmente um CONTATO, um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem e permanecerem em comunicação” (JAKOBSON, 1995, p.123)

Temos então o seguinte esquema:

CONTEXTO

REMETENTE   MENSAGEM   DESTINATÁRIO

CONTATO

CÓDIGO

Para aplicar o conceito, de uma forma mais pedagógica para ensino médio, parta da seguinte base: sempre vai ter alguém querendo dizer algo para outro alguém, ou seja, teremos sempre um remetente, uma mensagem e um destinatário. Porém o grande dilema da comunicação é a compreensão e a resposta dessa mensagem enviada. Assim, é preciso ficar atento aos outros três fatores de linguagem, fonte de basicamente todas as formas de mal-entendidos na comunicação.

CONTEXTO: Um conjunto de circunstâncias inter-relacionadas que envolvem um fato ou mensagem e que são imprescindíveis para o entendimento. Por exemplo, um convite para uma festa sem a data e o local dela torna a compreensão da mensagem ineficaz.

CONTATO: Um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem e permanecerem em comunicação. Por exemplo, um diálogo em um ambiente em que há muito ruído fica comprometido pois vários sons usam o mesmo canal.

CÓDIGO: Um sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas comum ao remetente e ao destinatário. O código mais usado entre nós é a língua. Por exemplo: duas pessoas tentando dialogar usando línguas diferentes e desconhecidas entre eles não vai produzir sentido.

3 – Conclusão:

Percebemos que Deus teve o intuito de confundir a linguagem humana, ou seja, o complexo sistema de comunicação composto por remetente, mensagem, destinatário, contexto, contato e código. Para essa confusão acontecer ele interferiu na língua, que era apenas uma e, naquele momento, transformou-se em várias. Assim, os remetentes e os destinatários não tinham em comum mais o mesmo código, não conseguindo decifrar ou decodificar as mensagens recebidas.


Terceiro Período

Atividade

Redes-sociais

1 – Atividade:

Mesmo que a aula seja extremamente dialógica, ainda assim é muito importante você sempre deixar alguma atividade, principalmente para que os alunos manuseiem o texto e dialoguem com ele. Nesse plano de aula, deixarei uma proposta, no entanto, você pode criar inúmeras possibilidades de ações dentro do texto. Para finalizar, é importante deixar um tempo para que eles desenvolvam o que foi proposto, então sugiro que você apresente a ideia no final do período, para que ela seja desenvolvida em outro dia. Assim, eles terão tempo de refletirem sobre o assunto.

2 – A nova Torre de Babel:

A tecnologia progrediu exponencialmente nos últimos anos. E um dos elementos mais desenvolvidos foi a mídia. Ou seja, potencializamos nossa capacidade de comunicação: hoje, ultrapassamos barreiras físicas e geográficas; barreiras linguísticas, com traduções simultâneas; entre outras. No entanto, parece que estamos vivendo num momento de incapacidade dialógica, com a propagação do ódio, dos preconceitos. Isso tudo pode nos lembrar o que aconteceu em Babel, quando os homens não mais se compreendiam. Dessa forma, a atividade proposta é a seguinte:

Dentro da linguagem, o que estaria dando errado na comunicação humana para não gerar diálogo? E o que poderíamos fazer para solucionar esse problema?

Obs.: Procure direcionar a linha de raciocínio para os fatores de linguagem e a definição dela, já trabalhada. Assim, você pode desenvolver uma interessante roda de debate, juntando literatura, linguística e atualidade.

Aula de alta potência: o deslocamento do parâmetro intelectual na educação

“Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunto em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, melhor adaptado a um auditório de estudantes…Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos” (SAUSSURE, 2000, p. XVII e XVIII)

1 - sala de aula

Ferdinand de Saussure (1857-1913) foi um linguista e filósofo suíço, que, no decorrer de sua carreira, sempre se preocupou com a precisão de seu objeto de estudo. Tanto é que, em sua mais importante obra O “Curso de Linguística Geral” (1916), mesmo que na voz de seus discípulos (o livro é póstumo) define, talvez pela primeira vez, com uma riqueza de exatidão, qual seria o objeto de estudo da Linguística – a língua.

Porém, o ponto chave para esse artigo não é o objeto específico, mas o caminho adotado para se chegar ao sucesso desse curso; o que poderíamos chamar de didática saussuriana. Segundo o linguista, uma das decisões mais importantes para construir suas aulas era saber qual o caminho a adotar para se chegar aos seus objetivos estabelecidos. Saussure diz:

“Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunto em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, melhor adaptado a um auditório de estudantes…Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos” (SAUSSURE, 2000, p. XVII e XVIII)

Possivelmente esse escrúpulo dito pelo autor o impediu de ministrar aulas com esse caráter ‘simplificado’. Dessa forma, Saussure produziu um curso de alta potência, que resultou numa revolução no método de se pensar a língua. É exatamente esse o dilema que o professor, seja da escola básica, seja do ensino superior, deve perceber antes de produzir seu plano de estudos.

Sendo assim, tenta-se, por meio desse artigo, demonstrar que o melindre na definição do objeto de estudo, na adequação da metodologia de trabalho, na organização de critérios que analisem os conceitos, os procedimentos e as atitudes durante o diálogo sobre o tema são imprescindíveis para o sucesso de uma aula. Porém, muito mais necessário torna-se ainda o escrúpulo do professor de ter a consciência da complexidade do assunto e das constantes dúvidas que podem surgir no decorrer do processo. Para que isso aconteça, é necessária uma transformação na referência de aula, isto é, deixar o trabalho alinhado à baixa potência, baseado no aluno médio, e partir para um estudo voltado para alta potência, identificado no aluno de vanguarda.

Um dos elementos mais importantes e, de certa forma, um tanto polêmico, é o deslocamento desse referencial de aluno, da base para o ápice na sala de aula: a vanguarda deve ser tomada como parâmetro intelectual na educação básica. Para que isso aconteça, é preciso reestruturar a didática aplicada – do obscurantismo das ideias amalgamadas, em virtude de uma falsa inclusão de todos ao tema proposto; à clareza do objeto de estudo, com uma fortuna crítica adequada e consistente, para que o diálogo possa adquirir um caráter mais complexo e útil. Além disso, faz-se necessário também a criação de estratégias de identificação dos alunos de alto padrão, para provocá-los e instigá-los ao máximo. Esses estudantes serão a peça chave para o progresso dialógico, pois eles farão o papel de intermediários do conhecimento com os alunos médios. Dessa forma, pautado na honestidade e no conhecimento do professor, no empoderamento e na participação das vanguardas de sala de aula, potencializa-se também os outros alunos. A educação deve voltar-se para o progresso e ele só acontece a partir do real conhecimento dos temas que permeiam a humanidade.

2 - Nikola-Tesla-Cover

A quem excluímos (nós, professores), quando optamos por uma aula mediana, que contempla apenas alunos de carga cultural deficitária? A resposta é clara – a vanguarda da sala de aula-, que perderá o interesse; que não se sentirá instigada ao progresso; que buscará em outros ambientes os diálogos promissores para seu desenvolvimento. Ao passo que a quem excluímos quando optamos por uma aula de alta potência, que provoque e desafie alunos de boa carga cultural? A resposta não é espelhada na anterior, pois, nesse caso, todos constroem conhecimento, exatamente por serem tencionados pela vanguarda.

Kandinsky (1914) ao pensar na arte de vanguarda a compara com um triângulo, diz ele:

“Um grande triângulo dividido em partes desiguais, a menor e a mais aguda no ápice, representa esquemática, mas suficientemente bem a vida espiritual. Quando mais se vai em direção à base, mais essas partes são grandes, largas, espaçosas e altas.

Todo triângulo, num movimento quase imperceptível, avança e sobe lentamente, e a parte mais próxima do ápice atingirá ‘amanhã’ o lugar onde a ponta estava ‘hoje’. Em outras palavras, o que para o resto do triângulo ainda é hoje apenas uma lengalenga incompreensível e só faz algum sentido para a ponta extrema, revelar-se-á amanhã, para a parte que lhe está mais próxima, impregnado de emoções e de novas significações”. (KANDINSKY, 1996, p. 35)

O que Kandinsky tenta evidenciar nessa metáfora é a necessidade da existência de uma vanguarda, que capte o momento social e cultural e que transcrevam, em algum tipo de linguagem, esse lugar, para que a base da pirâmide venha a percebê-lo mesmo tardiamente. Isso deixa claro que todos acabam sendo beneficiados nesse movimento, independentemente do tempo. No entanto, caso essa vanguarda não seja estimulada, corre-se o risco de abafá-la e silenciá-la envolta de uma massa de senso comum. Essa última ideia é enganosa, pois passa uma falsa imagem de conhecimento para a base, ao mesmo tempo em que exclui a vanguarda.

Dessa forma, faz-se necessária uma revisão não apenas da didática de sala de aula, mas também de cultura escolar. Há uma falsa impressão de inclusão social na escola, pois, ao focar no aluno médio ou deficitário, perde-se a construção e mantém-se o status quo. É preciso, acima de tudo, repensar a educação, provocando aquilo que é a sua essência: a inquietude do saber, a ânsia pelo progresso, a necessidade do conhecimento. Caso contrário, estaremos fadados à eterna estagnação e a uma burocratização dos ambientes educacionais, ou seja, um simples protocolo a ser cumprido para a inserção do sujeito no mercado de trabalho.

Referências:

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral, ed. Cultrix, São Paulo, SP, 2000.

KANDINSKI, Wassily. Do Espiritual na Arte, ed. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1996.

Dez dicas para uma aula honesta de literatura

Didática é a arte de ensinar. Essa parte da pedagogia se ocupa com o método e as técnicas que os professores adotam para desenvolverem suas aulas. Muitas vezes, você pode ter se deparado com algum professor, seja na escola ou na universidade, que aparentava ter uma boa bagagem de conhecimento de determinado tema, mas que não conseguia se fazer entender. Faltava-lhe a didática. Da mesma forma, outros poderiam deixar evidentes suas limitações, no entanto, suas aulas seguiam um andamento tão claro e tão dialógico, que potencializavam o pouco que se tinha a dizer. Eles tinham uma boa didática. Dessa forma, resolvi fazer uma pequena lista, para mostrar alguns pontos que procuro seguir para construir minhas aulas e, com isso, tentar ajudar jovens professores e, principalmente, lançar essas ideias para que sejam trabalhadas, questionadas, refutadas, etc.

1 - Livros

1 – Saiba qual o seu objeto de estudo e deixe isso claro para os alunos.

A Literatura, especificamente, é uma arte que envolve muitos sentimentos diversos e o professor, na maioria das vezes, é um apaixonado por livros. Isso, claramente, é muito bom para todos, mas pode acarretar certos deslizes quando se trata de uma aula. Dentro das escolas, a Literatura é tratada como uma disciplina de análise, ou seja, parte-se do texto e estuda-se elementos da produção desse texto. Dessa forma, costumo dizer que, na sala de aula, se trabalha a ciência da literatura, ou seja, ela deve ser vista de forma racional. E o princípio básico de uma ciência é o reconhecimento do seu objeto de estudo.

Jakobson diz que “o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra numa obra literária. (…) Se o estudo da literatura quer tornar-se ciência, ele deve reconhecer o ‘processo’ como seu único ‘herói’” (JAKOBSON, 1970, p. 178 e 179)

2 – Tenha sempre um texto base para a aula e indique-o com antecedência.

Um pressuposto aparentemente óbvio para o desenvolvimento de uma aula de literatura é que os sujeitos envolvidos tenham lido previamente o texto a ser analisado. Porém isso nem sempre acontece. Muitas vezes, professores trabalham a literatura fragmentada, ou seja, trechos de obras, frases de autores consagrados, etc., para desenvolver certo tema. Dessa forma, há um esvaziamento do sentido desse estudo, pois o aluno não tem contato com o material a ser estudado.

Além disso, planeje com antecedência o trabalho das obras. Se for estudar algum romance ou um texto de maior extensão, indique-o já no início do bimestre ou trimestre, para ser lido no decorrer dessa etapa. Textos mais curtos, poemas, contos, crônicas podem ser indicados com uma aula de antecedência.

3 – Facilite o acesso ao livro indicado.

A escolha das obras trabalhadas também deve ser norteada pelo acesso a elas. Verifique na biblioteca de sua escola o número de exemplares do livro. Ademais, a maioria dos textos estudados são consagrados e já estão em domínio público, isto é, facilmente são encontrados em PDF na internet. Há inúmeros sites que disponibilizam os clássicos nesse tipo de arquivo, como, por exemplo: Site Domínio Público

Assim, o aluno pode ler o texto no celular, no tablet, etc., sem nenhum custo.

Outra estratégia interessante de se fazer é entrar em contato com alguma livraria de sua cidade e fazer uma parceria. Livros populares, vendidos a preço de custo para alunos aumentam a circulação de novos leitores nesses ambientes e todos saem ganhando.

4 – Defina o recorte temático a ser trabalhado no texto.

Jakobson (1970)) faz a seguinte crítica a historiadores da Literatura:

“O mais das vezes, assemelhavam-se à polícia que, tendo por finalidade prender determinada pessoa, tivesse apanhando, por via das dúvidas, tudo e todos que estivessem num apartamento, e também os que passassem casualmente na rua naquele instante. Tudo servia para os historiadores da literatura: os costumes, a psicologia, a política, a filosofia. Em lugar de um estudo da literatura, criava-se um conglomerado de disciplinas mal acabadas”. (JAKOBSON, 1970, p. 178 e 179)

Ou seja, alguns professores tentam esgotar o inesgotável, isto é, as possibilidades de recortes temáticos para trabalhar uma obra. Assim, acabam, em diversas ocasiões, tangenciando o objeto de estudo literário, para falar de temas que não dominam profissionalmente.

Então, a escolha da obra deve ser pautada dentro da relevância estética dela. Defina, antecipadamente, qual o objetivo da leitura. Essa clareza insere o aluno no diálogo e potencializa a aula.

5 – Deixe explícitas as referências teóricas de sua aula.

Em tempos de turbulências na educação, em que professores seguidamente são acusados de doutrinação, nada melhor do que ser honesto com seu aluno. E isso acontece com a clareza das etapas de seu trabalho. Dessa forma, depois de ter escolhido a obra, feito o recorte temático, dê credibilidade a sua ideia com referenciais teóricos consistentes. Essa atitude, além de mostrar uma fortuna crítica, enriquece o debate sobre o texto.

No entanto, não faça dessas referências sua verdade absoluta, Bakhtin diz que muitos estudiosos “acreditam estar praticando a ciência e buscando a verdade, esquecendo que se baseiam em pressupostos arbitrários” (BAKHTIN, 1992, p. 4). Isto é, o mais importante é dar abertura para o diálogo, mas mantendo um sentido lógico e consistente da argumentação sobre o texto analisado.

2 - Leitor

6 – Distribua adequadamente seu tempo de aula.

A Literatura, na maioria das instituições de ensino médio, dispõe de dois períodos semanais, com aproximadamente 50 minutos cada um. Ou seja, a aula precisa ser dinâmica nesse tempo, seu planejamento deve ter início, meio e fim, seja por período seja por semana. Então, procure não exagerar nas informações, causando um estresse prejudicial a produção de sentido, nem reduzir demais o diálogo, provocando ociosidade na sala de aula.

Francisco Mora, especialista e neuroeducação, diz que:

“Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na prática, uma vez que esses formatos não serão alterados em breve, os professores devem quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um pesquisador, uma pergunta, um vídeo que levante um assunto diferente”.

Isto é, saiba aumentar e diminuir a tensão de suas aulas. Para isso, é interessante criar blocos de estudos, intercalando-os com algum momento de descontração ou informalidades.

7 – Identifique os leitores das turmas.

Num plano ideal, gostaríamos que todos os alunos lessem os livros indicados e fossem participativos nas aulas, porém sabemos que a realidade é um pouco diferente. Uma das últimas pesquisas sobre leitores no Brasil, a Retratos da Leitura No Brasil, mostra que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Essas porcentagens são manifestadas também em sala de aula. Assim, o professor irá se deparar com mal leitores e não-leitores na turma. Então, é importante identificar o mais rápido possível quais são os leitores reais das turmas.

Esses leitores reais serão os parceiros do professor no seu trabalho. É preciso que essa vanguarda seja estimulada, pois é ela que dará vida à didática. Além disso, esses alunos ocupam um lugar social na turma e podem ajudar a inserir novos leitores, devido a afetividade e proximidade linguística.

8 – Saiba o que os professores das disciplinas afins estão trabalhando.

Uma constante nos projetos políticos e pedagógicos nas escolas é a interdisciplinaridade, ou seja, o diálogo entre as diferentes disciplinas do currículo.  Essa ligação não precisa nem ser feita por meio de projetos (se eles existirem, melhor), mas através do próprio aluno, que deve ser instigado a isso. Dessa forma, é sempre bom saber o que os professores de História, de Geografia, de Filosofia, de Português, de Artes, entre outros, estão trabalhando. O pensamento “linkado”, aquela fala que acessa outras falas, é altamente contemporâneo.

Por exemplo, se você está trabalhando “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, provoque a relação entre os versos “O homem, que, nesta terra miserável/ Mora, entre feras, sente inevitável/ Necessidade de também ser fera” e a fala de Thomas Hobbes, “O homem é o lobo do homem”. Nisso você acessa o que o aluno estudou na aula de filosofia, de história, e potencializa seu conhecimento.

9 – Entenda que a literatura não está apenas nos livros, mas não confunda as artes.

A partir do momento em que se tem clareza sobre o objeto de estudo da Literatura, percebe-se que ela não está encerrada apenas nos livros. Mas também nas canções, nos roteiros de cinema, nas peças de teatro, etc. Então há um universo a ser explorado em diversas mídias, basta saber identificar a literariedade nas obras.

No entanto, não substitua uma obra por outra.  Se você se propôs analisar determinado livro, que, por ventura, foi fonte para algum filme, por mais que tenha o mesmo título, todas as referências direcionadas adequadas, ainda assim, o filme é outra obra, não o livro. Dessa forma, ou o filme é o objeto de análise de sua aula ou ele serve para contextualizar, mostrar outro ponto de vista baseado no livro estudado.

10 – Privilegie o texto original do autor.

Um dos grandes desafios da escola é tornar a leitura uma prática para a juventude. Tem-se a ideia de que a leitura ‘obrigatória’ (prefiro dizer recomendada) não é prazerosa. Em função disso, usa-se diversas estratégias para conquistar a atenção dos estudantes: como obras adaptadas para outras mídias diferentes do livro; reconstrução de clássicos em uma linguagem mais simples; resumos dos textos; etc. Isso tudo, mesmo feito com boa intenção, subverte o texto original, deturpa a obra do autor, ressignifica o discurso, pois altera enunciados e sentidos.

Possivelmente o problema esteja na produção de sentido. A leitura dos clássicos deve ser orientada (eis o motivo de se ter aula de literatura). Possibilitando o acesso aos textos e uma boa orientação de leitura, provavelmente, o aluno compreenderá melhor os discursos, ampliará seu vocabulário, perceberá intenções discursivas e atingirá o que se espera da aula de literatura: a qualificação da leitura, através da produção de sentido. Para isso é muito importante manter o texto original.

Referências:

 https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/17/economia/1487331225_284546.html

http://cultura.estadao.com.br/blogs/babel/44-da-populacao-brasileira-nao-le-e-30-nunca-comprou-um-livro-aponta-pesquisa-retratos-da-leitura/

JAKOBSON, Roman. Linguística. Poética. Cinema. Ed. Perspectiva, São Paulo, SP, 1970

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1992