Mecanismo da língua

Ferdinand de Saussure

Curso de Linguística Geral

Segunda Parte

Linguística Sincrônica

Capítulo VI

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1. As solidariedades sintagmáticas

O que preside o funcionamento da língua são suas relações, que podem ser ora associativas ora sintagmáticas. As solidariedades sintagmáticas chamam a atenção pela dependência das unidades da língua ao que a rodeia na cadeia falada e das partes sucessivas que a compõe. Por exemplo, uma unidade como “desejoso” é decomposta em duas subunidades (desej x oso), no entanto, não é apenas a união de duas unidades independentes, mas de uma combinação solidária, que só tem valor pela ação recíproca de cada um dos elementos. Dessa forma, “o todo vale pelas suas partes, as partes valem também em virtude de seu lugar no todo, e eis por que a relação sintagmática da parte com o todo é tão importante quanto o das partes entre si” (p. 148 e p.149). A língua possui alguns exemplos excepcionais, que funcionam independentemente, como “sim”, “não”, “obrigado”, porém sua quantidade não afeta o princípio geral. De modo que podemos pensar que “na língua, tudo se reduz a diferenças, mas tudo se reduz também a agrupamentos” (p.149), essa relação se assemelha a uma máquina, em que as peças todas têm uma ação recíproca.

2. Funcionamento simultâneo de duas formas de agrupamento

Existe um vínculo de interdependência entre os agrupamentos sintagmáticos, que se condicionam reciprocamente, criando assim coordenações associativas. Por exemplo, o composto “desfazer” surge na cadeia falada de forma linear, ou seja, um elemento após o outro: des-fazer. “Mas, simultaneamente, e sobre outro eixo, existe no subconsciente uma ou mais séries associativas” (p.149)

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É exatamente em função dessas outras formas que flutuam ao redor de “desfazer”, que essa palavra pode ser decomposta. Caso não houvesse outras construções com esses elementos não seria possível analisá-la em subunidades. Assim, “nossa memória tem de reserva os tipos de sintagmas mais ou menos complexos, de qualquer espécie ou extensão que possam ser, e no momento de emprega-los fazemos intervir os grupos associativos para fixar nossa escolha” (p.151). Isto é, a ideia não invoca apenas uma forma, mas ativa todo um sistema latente que envolve esta palavra.

Não é apenas na composição dos sintagmas que esse princípio se aplica, também é desenvolvido nas frases. Quando dizemos “que lhe disse?”, os elementos variam  num tipo sintagmático latente, por exemplo: “que TE disse?”,  “que NOS disse?”, etc. Dessa forma, mentalmente, eliminamos “tudo quanto não conduza à diferenciação requerida no ponto requerido” (p. 151).

3. O arbitrário absoluto e o arbitrário relativo

O mecanismo da língua pode mostrar, além de signos puramente arbitrários, também aqueles que são relativamente motivados. Por exemplo, “vinte” é imotivado, porém “dezenove” não, pois evoca “dez” e “nove”. Segundo Saussure, essa motivação relativa se dá ou pela análise do termo dado, isto é, relação sintagmática; ou pela evocação de termos, ou seja, relação associativa. Assim, “dezenove” é associativamente solidário a “dezoito”, dezessete”; da mesma forma que é sintagmaticamente solidário a “dez” e “nove”. “Essa dupla relação lhe confere uma parte de seu valor” (p.153).

Segundo o autor, o ponto de visto do arbitrário é o melhor possível para se estudar a língua. O motivo para isso é que dentro do campo desse campo estará se estudando a língua na sua condição mais natural. Pois, apesar da necessidade de certa regularidade e motivação necessárias à compreensão pelo espírito, o sistema repousa “no princípio irracional da arbitrariedade do signo” (p.154).

Todas as línguas estão entre os dois extremos, o plenamente imotivado e o plenamente motivado.  Importante saber que, “não existe língua em que nada seja motivado” (p.155), isto é, os idiomas carregam elementos das duas ordens. Dessa forma, tem-se as línguas em diferentes proporções de motivações e arbitrariedades. De certa forma, “poder-se-ia dizer que as línguas em que a imotivação atinge o máximo são mais lexicológicas, e aquelas em que se reduz ao mínimo, mais gramaticais” (p.154).

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