O Carrasco

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No cadafalso, o carrasco arranca a própria cabeça,

Aclamado pela massa medíocre que também vai morrer.


Debaixo da máscara negra, há o rosto de um povo que se odeia.

Odeia-se pela fome que sente,

Odeia-se pelo gosto fétido de suas cáries,

Odeia-se pela sua ignorância obediente,

Mas, principalmente, odeia-se pela sua incapacidade de revolta.


O horror às raízes faz o carrasco,

Mas essa repugnância não altera sua natureza.

Ao resignar-se diante de uma pretensa higienização,

Mata e morre ao executar cada sentença,

Enquanto o rei, do alto da torre, recebe a consagração.

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Imutabilidade e Mutabilidade do Signo

Ferdinand de Saussure

Curso de Linguística Geral

Primeira Parte

Princípios Gerais

Capítulo II

Curso de Linguística Geral (Ferdinand de Saussure).pdf

1. Imutabilidade

Com relação ao significante ou imagem acústica, Ferdinand de Saussure diz que o indivíduo ou a própria massa são incapazes de modificá-lo em qualquer ponto, isto é, ele está “atado à língua tal qual é” (p.85). Essa peculiaridade demonstra que “a língua não pode, pois, equiparar-se a um contrato puro e simples (…) pois, (…) a lei admitida numa coletividade é algo que se suporta e não uma regra livremente consentida” (p.85). Uma das provas disso é que, independente da época que remontemos, “a língua aparece sempre como uma herança da época precedente” (p.85). Dessa forma, torna-se uma questão menor a origem da linguagem, enquanto o que importa é a vida regular e normal do idioma já constituído.

Saussure também pensa na língua como nas outras instituições sociais, principalmente, os graus de maior ou menor liberdade e o equilíbrio entre a tradição imposta e a ação livre da sociedade. Além disso, desmistifica a ideia de que a língua está atrelada às gerações, “a língua não está ligada à sucessão de gerações que, longe de se sobrepor umas às outras (…) se mesclam e interpenetram” (p.86). Outro ponto é que o falante não tem, em larga escala, a consciência das leis da língua, ainda que tivesse “os fatos linguísticos não provocam a crítica, no sentido de que cada povo geralmente está satisfeito com a língua que recebeu” (p.87).

No entanto, as considerações mais importantes e essenciais para a imutabilidade da língua, para Saussure são: 1) O caráter arbitrário do signo: a condição da arbitrariedade tira o signo da pauta das discussões, pois, para isso acontecer, seria necessária uma base numa norma razoável, como não há, desaparece o terreno sólido para essa problematização. 2) A multidão de signos necessários par constituir qualquer língua: isso praticamente anula a possibilidade de mudança de um sistema para outro. 3) O caráter demasiado complexo do sistema: a língua se constitui em um sistema e sua complexidade não é percebida pela massa, e, mesmo os especialistas até agora não mostraram êxito nas intervenções nesse sentido. 4) A resistência da inércia coletiva a toda renovação linguística: “A língua – e esta consideração sobreleva todas as demais – é, a cada momento, tarefa de toda gente, difundida por uma massa e manejada por ela” (p.88). Esse fato basta para demonstrar a impossibilidade de uma revolução, ou seja, ela é a instituição que oferece menos oportunidades de iniciativas, assim aparece como um fator de conservação.

2. Mutabilidade.

O tempo revela uma contradição da língua, isto é, na medida em que assegura sua continuidade, também altera com relativa velocidade os signos linguísticos. Essa aparente incoerência é a base para o princípio da alteração. Assim, antes de analisar as mutabilidades da língua, Saussure define o onde as transformações ocorrem no signo: “Sejam quais forem os fatores de alteração, quer funcionem isoladamente ou combinado, levam sempre a um deslocamento da relação entre o significado e o significante” (p.89). Dessa forma, é possível perceber que a mutabilidade age dentro do material de conservação da língua.

Esses deslocamentos ocorrem sem que a língua consiga se defender. Isso acontece exatamente pela condição de arbitrariedade do signo. Diferentemente das outras instituições, que, em graus diferentes, são baseadas em certa ordem não arbitrária; a língua “não está limitada por nada na escolha de seus meios, pois não se concebe o que nos impediria de associar uma ideia qualquer com uma sequência qualquer de sons” (p.90). Assim, a evolução da língua se dá de uma maneira altamente complexa, pois, “simultaneamente, na massa social e no tempo, ninguém lhe pode alterar nada e, de outro lado a arbitrariedade de seus signos implica teoricamente, a liberdade de estabelecer não importa que relação entre a matéria fônica e as ideias” (p.90 e 91). Ao contrário do princípio de imutabilidade da língua, que é possível, claramente identificar o que se conserva; as mudanças ocorrem por diferentes fatores e em grandes variedades, só possível de identificá-las, quando o estudo for específico em algum ponto.

Mediocracia

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A liberdade não é democrática.

A mansidão elegante dos condenados somente afrouxa as correntes

E cria nas mãos calejadas a sensação dormente

Do livre arbítrio.


No entanto, a paz é democrática.

Ao perceber os grilhões, o homem revoltado perturba a marcha.

E provoca dor intensa aos escravos inconscientes,

Ao revelar os suplícios.


A reação é imediata.

A turba ergue-se indignada contra o cativo intransigente

E pede ao poder público a punição exemplar

Ao caso atípico.


A justiça é traumática.

Apesar do retorno ao breve alívio do folgar das correntes

Agora só viam na paz sem liberdade

Um imenso martírio.

O diagnóstico do letramento por meio da literatura

Disciplina: Literatura

Anos: 1º, 2º e 3º

Objetivo geral do primeiro trimestre: Diagnosticar os níveis de conhecimento literário dos alunos

Objetivos específicos: Desenvolver estratégias de diagnósticos de níveis de conhecimento dos estudantes na disciplina de Literatura; potencializar o diálogo sobre os temas propostos em sala de aula, a partir desses diagnósticos, buscando uma construção colaborativa de conhecimento.

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Introdução:

Segundo o PNAD (Plano Nacional de Amostra Domiciliar), a taxa de analfabetismo no Brasil foi de 7,2% em 2016, o que correspondia a 11,8 milhões de analfabetos. Esse número é maior que a população inteira do Rio Grande do Sul (11,3 milhões de habitantes). De acordo com o IBGE, analfabeta “é a pessoa que não sabe ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece”.

No entanto, há outra questão muito mais difícil de se diagnosticar numa pesquisa de caráter objetivo: o letramento. Segundo Magda Soares, pesquisadora da Faculdade de Educação da UFMG, letramento é “o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita” (p.18). Ou seja, o sujeito alfabetizado é aquele que adquire a “tecnologia do ler e escrever” (18), enquanto o letrado apropria-se dessas habilidades.

Alfabetização Letramento
Aquisição da tecnologia do ler e escrever Apropriação da leitura e da escrita

Normalmente, dentro do período da infância e da juventude do sujeito, há uma divisão em quatro níveis de letramento na escola: o primeiro corresponde ao processo de alfabetização, quando se consegue atingir a construção e a leitura de um bilhete simples. O segundo corresponde aos anos iniciais do ensino fundamental, quando se atinge ao mínimo funcional, ou a alfabetização funcional. O terceiro é desenvolvido nos anos finais do ensino fundamental, em que o estudante tem acesso a diferentes gêneros textuais e assim amplia sua leitura do mundo. Já no último ciclo da educação básica, a Literatura vem trazer a liberdade de pensamento do sujeito a partir dos textos. É por meio dessa arte que se percebe a arbitrariedade dos discursos dominantes que povoam o imaginário coletivo como verdades absolutas. E diante disso a literatura revela a imensidão de possibilidades que constroem o mundo e o sujeito. Uma de suas funções, no ensino médio, é o letramento possível para que o sujeito se torne um livre pensador. E assim ter competência discursiva para interagir com os inúmeros gêneros e temas que povoam a formação da humanidade.

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Problema:                          

Mesmo os estudantes estando no mesmo período de letramento, ainda assim, não necessariamente estarão no mesmo nível.  Os motivos são vários: diferentes formações escolares, constantes reprovações, dificuldades na aprendizagem, etc. Porém, antes de se trabalhar algum tipo de nivelamento, é preciso identificar esses alunos e, por meio de avaliações, perceber que tipo de trabalho deve ser efetuado para sua construção de conhecimento.

Diagnóstico – critérios

Antes de tudo, é importante desconstruir a ideia de avaliação como um julgamento punitivo, isto é, algo que vai aprovar ou reprovar o estudante. Se essa premissa for considerada para a educação, haverá um desvio de rota: dentro dessas condições, o aluno estuda para passar de ano, não para construir conhecimento. Prefiro pensar na avaliação como um diagnóstico dessa construção de conhecimento. Assim como um médico precisa de exames para compreender a enfermidade do paciente, o professor precisa de certa materialidade para perceber as dificuldades do aluno.

Para fazer esse diagnóstico, a escola normalmente estabelece três critérios: atitudinal, procedimental e conceitual.

Critério Conceitual: a base teórica aprendida. É por meio dos conceitos que o sujeito compreende o mundo. E o domínio e a apropriação dos conceitos pelos alunos são a bagagem para sua formação.

Aqui é importante compreender que essa apropriação conceitual em nada se parece com o ato de decorar conteúdos. O estudante precisa dominar esses conceitos para conseguir dialogar sobre eles, inclusive para refutá-los.

Critério procedimental: a produção em decorrência da teoria aprendida. Esse critério trabalha a ideia de aprender a fazer, isto é, o estudante precisa interagir e dialogar com os textos trabalhados. Assim, é por meio da produção que ele vai se inserir no diálogo e consequentemente aprimorar habilidades discursivas.

Critério atitudinal: a interação do sujeito durante o processo de aprendizagem com os outros agentes de construção de conhecimento, com o ambiente e com o objeto de estudo. Dentro de uma construção coletiva de conhecimento, como a que acontece em sala de aula, o estudante precisa ter uma conduta colaborativa para seu progresso e para o progresso do coletivo.

Conceitual Procedimental Atitudinal
Compreensão Produção Interação

Conclusão:

Evidentemente, existem inúmeras outras formas de se organizar uma aula. No entanto, parece-me ser urgente resolver a questão do diagnóstico do letramento dos estudantes da escola básica. Para isso, a Literatura precisa se colocar como um agente fundamental nessa construção. Espera-se, a partir dessa organização, qualificar a leitura e a compreensão de mundo e de si mesmo do aluno. Assim, o objetivo maior desse plano é pensar em critérios para diagnosticar em que momento do seu letramento os estudantes do ensino médio se encontram, para, a partir disso, desenvolver um nivelamento almejando a mais alta potência na construção de conhecimento.

Fontes:

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo.html, acesso em 03/04/18

SOARES, Magda Becker. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

http://www.redalyc.org/html/873/87313722003/, acesso em 04/04/18

http://br-ie.org/pub/index.php/wcbie/article/view/1938/1698, acesso em 07/04/18

Natureza do signo linguístico

Ferdinand de Saussure

Curso de Linguística Geral

Primeira Parte

Princípios Gerais

Capítulo 1

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1. Signo, Significado, Significante

A língua não pode ser reduzida essencialmente a uma nomenclatura, uma lista de termos que correspondem a outras coisas. Pois, caso contrário, segundo Saussure, “o vínculo que une um nome a uma coisa constitui uma operação muito simples, o que está bem longe da verdade” (p.79). Porém, o que se pode tirar de consistente disso é que “a unidade linguística é uma coisa dupla, constituída da união de dois termos” (p.79). Dessa forma, “o signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica” (p.80), configurando-se então como uma entidade psíquica de duas faces.

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Além disso, Saussure propõe outra designação para esses dois termos, o motivo é que a imagem acústica parece, no uso corrente, evidenciar-se mais que o conceito, que está atrelado a ela. Por exemplo, “esquece-se que se chamamos a arbor signo, é somente porque exprime o conceito ‘árvore’” (p.81). Para solucionar isso, substitui conceito e imagem acústica por, respectivamente, significado e significante. Segundo ele, “esses dois termos têm a vantagem de assinalar a oposição que os separa, quer entre si, quer do total de que fazem parte” (p.81).

Saussure também define duas características primordiais do signo linguístico, expostas nos seguintes princípios:

2. Primeiro princípio: a arbitrariedade do signo

O primeiro ponto tratado por Saussure define o signo linguístico como arbitrário, isto é, o “laço que une o significante ao significado é arbitrário” (p.81), por exemplo, “a ideia de ‘mar’ não está ligada por relação alguma interior à sequência de sons m-a-r” (p.81). Ele prova isso através das diferentes línguas que possuem imagens diferentes para representar conceitos próximos. Além disso, argumenta que “todo meio de expressão aceito numa sociedade repousa em princípio num hábito coletivo” (p.82). Dessa forma, a arbitrariedade do signo produz sentido por se tornar uma convenção socialmente aceita.

3. Segundo princípio: caráter linear do significante

O significante, ou seja, a imagem acústica, representa uma extensão no tempo, que funciona em apenas uma dimensão: “é uma linha” (p.84). Dessa forma, o mecanismo da língua dispõe seus elementos um após o outro, formando uma cadeia. Sendo assim, não há nenhuma espécie de sobreposição de elementos na organização linguística.