Lugar da língua nos fatos humanos. A semiologia

Ferdinand de Saussure

Curso de Linguística Geral,

Introdução

Capítulo III

Objeto da Linguística

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Após a definição do objeto de estudo e a delimitação do que é a língua, além de sua organização dentro da linguagem, Saussure chega a seguinte conclusão: “a língua, assim delimitada no conjunto dos fatos de linguagem, é classificável entre os fatos humanos, enquanto que a linguagem não o é” (p.23). Dessa forma, a língua se constitui numa instituição social, apesar de peculiar e distinta das demais.

Além disso, “a língua é um sistema de signos que exprimem ideias” (p.24), assim como a escrita, o alfabeto dos surdos-mudos, os ritos simbólicos, sinais militares, etc. Isso quer dizer que ela é parte de algo maior, uma outra ciência, que para Saussure, pode se chamar Semiologia: “uma ciência que estude a vida dos signos no seio da via social” (24). A Linguística, então, seria parte dessa ciência geral e seria regida por suas leis.

Dessa maneira, a língua sendo reconhecida como objeto complexo de estudo da Linguística, que, por sua vez, faz parte de uma possível ciência mais geral, a Semiologia, pode-se desprender da concepção superficial da grande massa de que ela é simples nomenclatura. Evidentemente, que esse estudo é extremamente complexo: “o signo sempre escapa, em certa medida, à vontade individual ou social” (p.25), ou seja, percebe-se a língua vinculada às outras instituições, dificultando sua percepção mais específica dentro do campo do sistema semiológico. Mesmo assim, faz necessário perceber que o problema linguístico é antes de tudo um problema semiológico.

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Lugar da Língua nos fatos da linguagem

Ferdinand de Saussure

Curso de Linguística Geral,

Introdução

Capítulo III

Objeto da Linguística

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Ferdinand de Saussure, após definir a língua como o objeto de estudo da Linguística e o ponto fundamental para a linguagem, procura identificá-la no circuito da fala. Para isso, toma dois indivíduos, A e B. O ponto de partida se dá no cérebro de A, “onde os fatos de consciência, a que chamaremos conceitos, se acham associados às representações dos signos linguísticos ou imagens acústicas que servem para exprimi-los” (p. 19). Esse fenômeno é inteiramente psíquico. Após isso, há o processo fisiológico, da transmissão do cérebro para o aparelho fonador por meio de impulsos, que irão culminar num processo físico de emissão de ondas sonoras da boca de A para o ouvido de B. Esse circuito se estende em ordem inversa para B, que recebe por um processo físico e impulsa num processo fisiológico o signo para o cérebro, onde ocorre o processo psíquico.

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Evidentemente que essa análise não pretende ser completa, mas, acima de tudo, quer distinguir as partes físicas (ondas sonoras), as partes fisiológicas (fonação e audição) e as psíquicas (imagens verbais e conceitos). Assim, pode-se perceber que a imagem verbal e o conceito não se confundem com o som, pois são psíquicas. Dessa forma se compõe o ato individual, o embrião da linguagem.

Porém Saussure amplia sua análise para o fato social, uma espécie de meio termo que une os indivíduos pela linguagem. Eles reproduzirão mais ou menos os mesmos signos unidos aos mesmo conceitos. No entanto, para entender esse funcionamento, precisa, antes de tudo, excluir os processos individuais – os físicos e fisiológicos principalmente – que serão associados ao campo da fala. Restará então a “totalidade das imagens verbais armazenadas em todos os indivíduos (onde) atingiríamos o liame social que constitui a língua” (p.21). Dessa forma, a fala é individual e mais ou menos acidental; e a língua é social e essencial.

Sendo assim, a língua localiza-se “na porção determinada do circuito em que uma imagem auditiva vem associar-se a um conceito” (p.22), além de ser “a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la” (p.22). Isto é, a língua é uma espécie de “contrato estabelecido entre os membros da comunidade” (p.22).

DE SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. Ed. Cultrix, São Paulo, SP, 2000.