Sozinho? A Hipertextualidade no discurso de Caetano Veloso

Resumo: Diante do estrondoso sucesso da canção “Sozinho”, em 1999, Caetano Veloso aproveita sua autoridade musical para recuperar a versão de Tim Maia, se valendo da hipertextualidade. Seu discurso, que interrompe a horizontalidade da música, funciona como um hiperlink, que percorre toda a trajetória da construção da ideia de cantá-la. Isso revela a importância desse conhecimento para a propagação da cultura na nossa atualidade.

1998 - Prenda Minha

Durante a turnê do disco “Livro” (1997), Caetano Veloso fez o registro, ao vivo, deste espetáculo nos cd e dvd intitulados “Prenda Minha” (1998). Esse álbum foi um sucesso, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas. Isso se deveu, principalmente, à inclusão da regravação da canção “Sozinho”, de Peninha, na novela “Suave Veneno”, de Aguinaldo Silva, no ano seguinte. Essa canção já havia sido interpretada por, pelo menos, mais dois grandes nomes da MPB, Sandra de Sá e Tim Maia, no entanto, essas versões já haviam caído no ostracismo. Caetano Veloso, então, valeu-se de sua posição de autoridade artística para recuperar a interpretação desses dois outros nomes, por meio de um discurso simples, mas rico em hipertextualidade.

Na versão reservada para o DVD, Caetano Veloso interrompeu a canção para contar como decidiu colocá-la no repertório do show. Ele disse o seguinte:

“Tão bonitinha! Essa música é muito bonitinha. Eu ouvi a gravação de Sandra de Sá, tocava no rádio sempre. Achava linda! E pensava assim: próximo show que eu fizer, vou cantar essa música. Não sabia nem de quem era a música. Um dia eu estava ouvindo uma rádio dessas que dizem o nome do autor da canção, aí o cara falou assim “Sandra de Sá, ‘Sozinho’, de Peninha. E eu disse “porra, a música é de Peninha, aí é que vou cantar mesmo!”. Porque, olha, veja bem, eu já estava apaixonado pela música, a gravação de Sandra era linda, já estava decidido a cantar no próximo show que eu fizesse e ainda fiquei sabendo que a música era de Peninha, aí tinha tudo mais a ver! Mas um dia eu estava no carro, com o rádio ligado e ouvi, no rádio do carro, essa música na gravação com Tim Maia. Aí eu desisti de cantar. E, no entanto, estou aqui cantando ela. É porque eu desisti, mas eu não resisti! É que, bom, eu não estou cantando ela, estou apenas mencionando a canção. Porque a gravação de Sandra é lindíssima e a de Tim Maia, arrasadora! Mas eu pensei assim: bom, se eu cantar no meu show, as pessoas que vêm ao meu show vão querer reouvir a gravação de Sandra e procurar a gravação de Tim Maia”.

Sozinho – Caetano Veloso

A teoria da comunicação eleva a ideia de hipertexto como uma nova forma de escrita advinda da cibercultura. Esse modelo que substitui, de certa forma, a construção hierárquica por uma horizontal cria a possibilidade da externalização das referências de um texto, isto é, através de hiperlinks, pode-se recuperar imediatamente a origem de pontos de memória. Esse movimento tende ao infinito, pois a referência encontrada pode conter uma nova referência, que, por sua vez, pode trazer outras e assim sucessivamente. Para Pierre Lévy (1993), hipertexto é uma espécie de organização e de reconhecimento de dados, para a aquisição de informação e conhecimento.

No entanto, apesar de ser uma técnica que provém do desenvolvimento da internet, não é uma novidade plena, pois, na teoria linguística, a memória discursiva já efetua esse papel há um bom tempo. A memória discursiva, segundo Orlandi (2000), é tratada como um interdiscurso, a fala que vem antes, que está em outro lugar, independente do contexto imediato. Isso fica mais claro quando se pensa na constituição do discurso por dois eixos: o vertical, relacionado ao que já foi dito, à memória, todos os dizeres já-ditos; e a horizontal, o eixo da formulação, aquilo que está sendo dito no momento, em determinada situação. A análise vertical dos enunciados se interliga com a teoria da hipertextualidade que, de acordo com Levy, é todo fenômeno que envolve significações. Então, o hipertexto funciona como uma recuperação de uma falha na construção das ideias, isto é, sempre que, em certo momento, for necessário interromper o processo linear do conhecimento para aprofundar-se em certo recorte, aplica-se a hipertextualidade.

Caetano Veloso, que já havia recuperado a música ao cantá-la, exteriorizou a relação hipertextual ao interrompê-la, para construir a verticalidade da memória. Isto é, no momento em que ele conta como surgiu a ideia de regravar “Sozinho”, por meio da versão de Sandra de Sá, está interrompendo a linearidade do dizer, para acessar um link de sua memória: “Eu ouvi a gravação de Sandra de Sá, tocava no rádio sempre. Achava linda! E pensava assim: próximo show que eu fizer, vou cantar essa música”.

Sozinha – Sandra de Sá

Porém, a hipertextualidade tende ao infinito. A partir do momento em que ela é acessada, abre possibilidade de novos links, que irão aprofundar o conhecimento desse assunto. Caetano Veloso, quando decide cantar a canção, a coloca em atividade na sua memória discursiva, isso faz com que, ao escutar, em outra situação o rádio, atente para ela de uma forma especial, descobrindo, por fim, seu autor: “Um dia eu estava ouvindo uma rádio dessas que dizem o nome do autor da canção, aí o cara falou assim ‘Sandra de Sá, ‘Sozinho’, de Peninha’”.

Mas, nesse discurso, Caetano Veloso tinha um objetivo maior: divulgar a versão de Tim Maia, que ele considerava “arrasadora”, no entanto, não tão evidente midiaticamente como a de Sandra de Sá. Dessa forma, ao decidir cantá-la, expõe sua real meta: “bom, se eu cantar no meu show, as pessoas que vêm ao meu show vão querer reouvir a gravação de Sandra e procurar a gravação de Tim Maia”. Dessa forma, Caetano Veloso serviu como link para essa última versão. A partir do momento em que conclui sua pesquisa, retoma a horizontalidade da canção.

Sozinho – Tim Maia

Em uma rápida busca no Youtube, é possível encontrar, nos vídeos mais acessados da versão de Tim Maia, comentários que remetem a Caetano Veloso: “Obrigado, Caetano, por me fazer descobrir essa versão. Obrigado Tim Maia, por ter gravado essa maravilha!”, ”Estou aqui por conta do Caetano”, “Se hoje estou aqui ouvindo essa versão é graças ao Caetano”, entre outros. Ou seja, em função da atitude hipertextual, da quebra da linearidade da música para acessar um link, Caetano Veloso faz uso de sua popularidade para divulgar uma versão, que ele julga excelente, para o grande público. Sendo assim, a propagação da cultura se deve muito ao fator hipertextual, quando um eixo vertical de leitura é ativado, possibilitando um enriquecimento na leitura da obra em questão.

Referências

ORLANDI, Eni. Análise de discurso. Ed. Pontes. Campinas, São Paulo, 2000.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. 2. ed.

VELOSO, Caetano. Prenda Minha. PolyGram, 1999.

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“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Goethe: as marcas de um suicídio anunciado.

Resumo

Após a publicação e o sucesso de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Goethe, a Alemanha passou por um surto de suicídios, tanto que o livro foi, por um período, censurado, sendo considerado como uma leitura maldita. Isso aconteceu porque os jovens tiveram uma imensa empatia com a personagem principal. Desde então, ondas de suicídios são chamadas de “Efeito Werther”. Esse artigo busca desvendar as marcas discursivas que induzem o leitor a naturalizar essa ideia fatal. Goethe “planta” pistas, quase que descompromissadas, do fim desse jovem apaixonado, que entram no inconsciente do leitor como minas prestes a explodir.

sofrimentos

Introdução:

Muito mais que a pura decodificação da língua, a leitura é um ato político e social. Para Bakhtin, a análise de uma obra é, acima de tudo, um diálogo com ela, isto é, a constante reinvenção do texto parte de diversos fatores que interferem nesse processo dialógico, tanto que obras ditas canônicas são aquelas que conseguem, apesar dos tempos, manterem-se ativas na atualidade. No entanto, muitas vezes, o leitor não percebe essa relação, por não conseguir estabelecer uma leitura profunda desses textos, mesmo sendo influenciado por eles. Isso acontece, entre outros fatores, pela falta de percepção das marcas discursivas, que constroem a possível intenção da obra, que acabam levando o interlocutor para um fim.

Em “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, indicativos do suicídio da personagem principal estão por todas as partes do texto, porém de uma forma sutil, que, até para Werther parecem não ser percebidos: “afinal, esse triste pensamento se foi tornando cada vez mais familiar e simpático” (p.133). Da mesma forma, o leitor segue o mesmo caminho da construção dessa ideia, por empatia à personagem, surpreendendo-se com o desfecho, que desde o início estava sendo apontado. Essa postura levou muitos jovens, que tiveram angústias semelhantes às de Werther, no século XVIII, ao mesmo destino. Isso aconteceu pela influência de marcas do texto no inconsciente desse leitor, que, alheio à intenção, é induzido a crer em inevitáveis resultados de um processo que é lógico, o discurso.

Essa obra de Johann Wolfgang Von Goethe foi publicada em 1774, e é considerada como um dos marcos iniciais do Romantismo, que, na Alemanha, ficou conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto). Esse movimento tinha um caráter mais emocional, mais passional, mais espontâneo do que a literatura vigente da época, que seguia uma tendência mais racionalista e classicista. Dessa forma, o discurso deveria tentar passar ao leitor esse ideal libertário, mas, mesmo assim, ele não estava desprovido de técnica. A habilidade do autor Romântico deveria ser extrema, ao ponto de provocar a intenção do texto livre, dentro de uma estrutura narrativa que proporcionasse esse diálogo com o leitor. Werther, em uma de suas cartas, define esse modelo de escrita:

“Um autor estraga a sua obra, revendo-a e corrigindo-a para uma segunda edição, pois ela nada ganha quanto ao conteúdo poético. A primeira impressão nos encontra em estado passivo, a tal ponto que o homem pode aceitar as coisas mais inverossímeis; e, como se fixam fortemente no seu espírito, ai daqueles que depois pretendam apagá-los ou arrancá-los” (p.64)

Exatamente o “estado passivo”, dito por ele, que é o foco do texto Romântico. A relação do leitor com ele cria essa empatia mais passional, a partir do momento em que isso é dito e marcado pela personagem. Esse enunciado funciona mais ou menos como uma orientação de leitura, naturaliza-se o fator emotivo, velando as marcas discursivas criadoras dessas sensações. Pêcheux diz que “é nesse reconhecimento que o sujeito ‘se esquece’ das determinações que o colocaram no lugar que ele ocupa” (PÊCHEUX, 1991, p.170). Esse esquecimento vai gerar a catarse, isto é, quando se tem a descarga emocional, esquece-se da estrutura racional, não é por menos que o movimento liderado por Goethe se chamava “Tempestade e Ímpeto”, ou seja, a purificação do espírito era causada pela impetuosidade de uma leitura passional, induzida por uma escrita racionalmente passional.

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Projeto do suicídio:

O primeiro momento em que surge alguma referência ao suicídio, na obra, é na carta do dia 16 de junho, exatamente no dia em que Werther conhece Charlotte. Ao contar, ao amigo Wilhelm (seu interlocutor da quase totalidade das cartas), do prazer que sentiu ao dançar com ela, Werther diz o seguinte: “mas, Wilhelm, para falar francamente, jurei a mim mesmo que, se amasse uma jovem e tivesse qualquer direito sobre ela, preferia fazer-me matar a consentir que ela valsasse com outro, você me entende” (p.32). É importante perceber que nesse enunciado, quase que despretensioso, conecta-se duas marcas que seguirão juntas até o fim do texto, a morte e a musa. Além disso, cria o argumento que justificaria esse ato extremo: o suicídio viria do direito de posse e do ciúme sentido por ele com relação a ela.

Já na carta de 12 de agosto, Werther desenvolve sua maior análise sobre suicídio. Nela, a personagem conta uma “cena bem singular” (p.57), que teve com Albert, noivo de Charlotte (o outro que vai valsar com ela): após uma conversa sobre a história de umas pistolas que Albert tinha, Werther resolve, por brincadeira, apontar uma delas contra si. Isso gera uma discussão a cerca do direito ao suicídio. De um lado, Werther argumentando passionalmente, de outro, Albert buscando argumentos mais racionais sobre o tema. Werther diz: “A questão não é saber, pois, se o homem é forte ou fraco, mas se pode aturar a medida de sofrimento, moral ou físico, não importa, que lhe é imposta” (p.61). Isso para rebater o argumento de Albert, que diz: “Decerto, é muito mais fácil morrer do que suportar com constância uma vida de tormentos” (p.60). A partir dessas duas falas fica evidente o contraste entre eles, Werther – o passional, Albert – o racional.

Ainda na mesma carta, para justificar o caráter passional do argumento, Werther diz:

“E, diga-me, não é o mesmo que acontece numa doença? A natureza, não encontrando no labirinto onde as forças lutam e se debatem confusamente, caminha para a morte inevitável. Maldito seja aquele que, vendo tudo isso, contenta-se em dizer ‘Que insensato!’ Ele devia esperar, deixando que o tempo agisse por si; seu desespero ter-se-ia acalmado e não faltaria quem o consolasse. É absolutamente como se se dissesse, ‘Como é que esse doido foi morrer de febre? Se ele tivesse esperado que suas forças voltassem, que os humores fossem purificados e cessasse a agitação do sangue, teria sido bem sucedido e ainda estaria vivo!” (p.63 e 63)

Nesse enunciado, nota-se a construção lógico-argumentativa estabelecida por ele, para transformar o suicídio numa doença, em algo que ultrapassa a condição da escolha humana e passa a ser um ato puramente da natureza do ser. Além disso, deve-se entender que a passionalidade defendida por Werther, não é plenamente impulsiva. A própria origem do termo paixão confirma a ideia da personagem, pois ela vem do grego pathos, que, historicamente é tido como doença, mas MD Magno diz que “Pathos não é doença (…) mas sim o que nos afeta. (MAGNO, 1996, p.12). Charlotte afeta Werther, o que faz com que ele pense estar em um estado alterado de sua normalidade física e mental, confundindo isso com uma febre, quanto, na verdade, está arquitetando a justificativa do suicídio.

No entanto, não é só amor impossível por Charlotte que o leva a elaborar essa ideia, há outro agravante que faz Werther pensar em suicídio: o tédio de uma vida medíocre.

“E a miséria dourada, e o tédio que se experimenta em meio destas vis criaturas que aqui se reúnem! Como elas se disputam a preferência, como ficam dia e noite a espreita para ganhar uma polegada de terreno, e como as paixões mais mesquinhas e miseráveis aí se mostram sem véu”. (p.32)

O movimento Romântico mostra muito esse imenso desânimo e incapacidade de uma felicidade mundana, como se seu espírito não pudesse ser livre, pois estaria preso no cárcere do corpo e da realidade tediosa. Essa característica ficou conhecida como spleen, uma representação do tédio de viver. Isso fica mais evidente no livro segundo da obra, em que Werther relata mais duramente o fim do seu paraíso idealizado ao lado de Charlotte, no lugarejo de Wahlheim: “não sei por que me deito e por que me levanto” (p.85) e “diga você o que quiser: não posso ficar mais aqui, onde nada tenho a fazer e o tédio toma conta de mim” (p.97). Nesse último trecho, ainda há uma ambiguidade quanto ao sair desse lugar de pessoas mesquinhas, que pode ser a cidade ou a própria vida.

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O beijo da morte

“Desamparados pela fé, desencantados do amor, descrentes da sociedade, só no álcool, no fumo ou na devassidão podiam tais espíritos se esquecer por uns momentos do tédio que os devorava” (BUENO, 1995, p.6), assim eram os poetas Românticos. O spleen, esse tédio de viver, fazia com que esses homens se amparassem no campo das ideias, nos absurdos criados por uma mente embriagada. Dessa forma, a concretização de suas vontades era um inimigo voraz para eles, pois devorava seus desejos, seus anseios, seus amores platônicos.

Em “O Banquete”, Platão desenvolve sua tese sobre o amor, dizendo que esse é desejo, mas não só do que não se tem, também da permanência disso. O poeta Romântico bebe dessa fonte. Para ele, o amor é uma incompletude, assim como a vida, por isso o incessante contato com a morte, onde seu espírito seria liberto do cárcere dos sentidos. Werther deseja Charlotte, porém não a tem, e, se um dia a tivesse, não bastaria, pois desejaria tê-la para sempre. Quando isso não acontece, sua vontade recai na morte: “Ó Deus, vede meu sofrimento e procurai pôr lhe um termo!” (p.119).

Essa característica platônica percorre a obra de Goethe, não só no ambiente que causa desconforto a Werther, mas no seu amor por Charlotte. Logo no início, ele já indica qual será o lugar dela no seu mundo:

“Que sensação se comunica a todo o meu ser quando por acaso meu dedo toca no seu, ou nossos pés se encontram embaixo da mesa! Retiro-os como se tivesse tocado o fogo, e uma força secreta impulsiona-me de novo. A vertigem arrebata os meus sentidos!” (p.49)

Charlotte passa a ser intocável, pois é um anjo, uma musa para ele, isto é, ela é retirada do mundo real e colocada num patamar de perfeição das idealizações: “Ela me e sagrada” (p.49). Dessa maneira, o desejo tornar-se permanente e inesgotável, porque é inatingível, mesmo que uma força o leve para a constante busca por ela. Isso faz com que qualquer contato físico com ela se torne pecado:

“Não resisti mais; inclinando-me, fiz este juramento: “Jamais terei a audácia de imprimir em vós um beijo, ó lábios em que pairam os espíritos do céu!” E, no entanto…eu quero…Ah! veja você, uma grande muralha se ergue diante da sua alma!…uma tal felicidade…e, depois, morrer expiando esse pecado…pecado?” (p.114)

Werther mesmo se questiona quanto ao lugar de Charlotte em sua vida, isso porque sendo um apaixonado, duvida muitas vezes de seus sentidos, pois a paixão é aquilo que o afeta. Exatamente por isso chega à conclusão de que tocá-la seria um pecado, mas, ao mesmo tempo, titubeia diante desse resultado. Nesse instante o inconsciente se confronta com um lampejo de razão: o pecado acontece ao tocar sua musa, criada a partir de uma construção racional do conhecimento do conceito de paixão. Porém, Werther assimila tão profundamente esse discurso, que o naturaliza, como algo espontâneo e irracional. Ao questionar se isso seria pecado, ele traz à tona o processo lógico velado pela suposta febre amorosa. Ou seja, por um momento, ele percebe que chegou até esse ponto racionalmente, e, assim, torna-se possível questioná-lo: “Fiquei estupefato ao verificar que foi conscientemente que avancei, passo a passo por este caminho”. (p.55)

Com o passar do tempo, a resolução da trama da vida Werther se aproxima. Dias antes do Natal, do ano de 1771, Charlotte está intimamente resolvida a fazer de tudo para afastá-lo, pois já se tornava insustentável o relacionamento dele com Albert. Assim, ela o pede para somente aparecer na véspera do Natal. Ele, em mais uma ato de impetuosidade, diz “não, Charlotte, nunca mais a verei” (p.135). Não se pode esquecer que para Werther, ela era um anjo, e o rompimento desse acordo tácito feito ali, poderia ter uma significação de pecado.

No dia 21 de dezembro, Werther escreve o seguinte trecho para Charlotte:

Você não me espera mais, acreditando que eu lhe obedecerei, que só a verei na véspera do Natal! Ó Charlotte, hoje ou nunca! Na véspera do Natal, você terá em mãos este papel, estremecerá, molhará esta carta com as suas lágrimas queridas. Eu quero…é preciso!…Oh! como me sinto feliz por haver tomado uma resolução. (p.140)

Ele parece decidido a executar o projeto de suicídio. E, para fazer disso uma expiação, Werther comete dois pecados: o primeiro é o de ir vê-la antes do dia combinado: “Você não cumpriu a palavra!” (p.141), repreende Charlotte, como se lançasse nele uma cobrança divina. O segundo acontece quando, em um momento de constrangimento, Charlotte pede para Werther ler uma tradução dele de uns cantos de Ossian. Arrebatados por essa leitura, confundem o próprio infortúnio com o do herói do texto lido e, num momento catártico, beijam-se:

“O peso dessas palavras caiu sobre o coração do desgraçado, que se atirou aos pés de Charlotte, no paroxismo do desespero, tomou-lhe as mãos e as levou aos olhos e ao rosto. Pareceu a Charlotte que o pressentimento de um mau desígnio lhe atravessara a alma; seus sentidos deliravam. Apertou-lhe as mãos e ele premiu as dela contra o peito. Em dado momento, inclinou-se Werther, com uma emoção dolorosa, e as faces escaldantes de ambos se tocaram. O mundo inteiro deixou de existir. Werther enlaçou-a com os braços, apertou-a ao coração e cobriu de beijos furiosos seus lábios trêmulos e balbuciantes”. (p.150)

Werther comete a audácia de imprimir-lhe um beijo, de tocar os lábios que, para ele, pairam os espíritos do céu. Cumprindo sua promessa, expiará esse pecado com a morte. Seu suicídio acontece na madrugada do Natal.

Um ano, seis meses e nove dias após o início do projeto de seu suicídio, Werther termina sua angústia da vida mundana, precisamente numa data em que carrega o sentido de nascimento. Sua calma não é nem um pouco surpreendente, pois a construção desse fim foi plenamente racional: “Veja, Charlotte, que não tremo ao pegar a fria e terrível taça por onde quero beber a embriaguez da morte! É você quem ma apresenta e eu não hesito um só momento.” (p.159). Dessa forma, fecha-se o ciclo da vida dessa personagem, cumprindo todos os desígnios estabelecidos, por ele, no decorrer a trama:

  • O juramento de matar-se caso ela “valsasse com outro”, ou seja, caso ela concedesse sua mão a outra pessoa, que não ele. O que aconteceu, pois ela se casa com Albert.
  • A promessa de jamais tocar os lábios dela. Caso isso acontecesse, a expiação desse pecado seria a morte. Ato cumprido, após o ímpeto de beijá-la calorosamente, depois da leitura de Ossian.

Sendo assim, fica evidente que, apesar do discurso ser livre e, aparentemente, espontâneo, características do movimento Romântico, é construído com uma precisão plenamente racional. A trama é formada pelo crescimento da ideia do suicídio por um amor não correspondido. Isso vai envolvendo o leitor, que, por empatia, acaba sendo levado inconscientemente a acompanhar, quase que às cegas, Werther ao termo de sua vida. Tudo isso acontece, pois Goethe “planta” marcas discursivas, no decorrer da obra, que indicam esse fim. O resultado foi um livro que provocou, no seu tempo, uma onda catártica muito grande, levando, inclusive, muitos jovens ao suicídio (futuramente conhecido como Efeito Werther), pois foram afetados pelo discurso construído por essa personagem.

REFERÊNCIAS

GOETHE, Johann, WERTHER. Ed. Abril, 1° edição, 1971, SP – São Paulo

PÊCHEUX, M.; FUCHS, C. A propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3ª edição. Campinas: editora da Unicamp, 1997.

http://livros01.livrosgratis.com.br/cv000048.pdf – Pesquisado em 12/08/2015