Melancolia

mito_de_sisifo_800

Uma sombra me espreita no canto da sala

Acompanha meus passos com a resoluta certeza

De que não haverá nenhuma surpresa em minhas ações.

E quando percebe, por um instante, o titubear dos meus atos

Segura-me impetuosa pelos braços

E sussurra-me determinante:

-És livre, és livre,

Mas bem sabes a condição.


Resignado retorno ao ocioso ofício.

Encontro na erudição o engajamento dos meus dias,

A pedra que carrego inutilmente montanha acima.

Da existência, faço minha filosofia,

Da consciência, meu abrigo,

Do absurdo, meu horizonte último de sentido.


Na inexorável subida pelo infecundo solo batido,

Por inconveniência ou perversidade,

O vigilante vulto invencível distrai-me com atrocidades.

– Esmagados pelas próprias pedras pensam no poder

 Os pobres humanos perdidos.


Sorrio-me como se houvesse da ignorância recém-saído,

O mar imenso da humanidade se mostra para mim:

Homens em magníficas montarias carregando suas pedras;

Catapultas arremessando-as através dos séculos;

Multidões mutilando-se por elas.

E as pedras caindo

E as pedras caindo.


Incontrolavelmente sinto vontade de chorar,

Afrouxam-me as pernas e minha força cede,

Inconsequente fragilidade humana.

Olho para o canto da sala e percebo

Distanciando-se de mim, já noutra vizinhança,

A sombra sussurrando no ouvido de uma criança:

-És livre, és livre,

Mas bem sabes a condição.


Enquanto assiste à minha pedra cair.

Anúncios