acedia-brueghel1

Cena familiar:

Na sala de jantar é servida a ceia

No silêncio das insinceridades cerimoniais.


Uma oração ressoa no recinto,

Repetindo antigas estrofes,

Em sussurros constrangidos

De crentes formais.


Assim seja:

Destrincham a ave sobre a mesa,

Rasgam suas coxas com extrema destreza,

Devoram seu peito numa voraz frieza.

A carne nua indefesa

Sacia a sedenta e sigilosa

Concupiscência.


Livre associação,

Inconsciência despida:

Soerguem-se os olhos do pai

Sobre a inocência da filha.

Sorri constrangido um sorriso de sangue,

Do famigerado ser infame

Oferecido pela faca fria.


Fálico utensílio,

Que no mesmo instante,

 Também sofre a influência da mão infante.

Na falha no tempo,

É forjada a metáfora:

 A faca no defunto-alimento

 Desafoga a ânsia que afaga o peito

Da filha ofendida.


Assim segue o banquete.

Liturgia familiar, mantém-se a rotina:

Que sorte!

A imolação morta sobre a mesa

É suficiente ao sacerdote apático

Salvando a virgem da violação prevista

Por mais um dia,

Por mais um dia…

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