ira
Anger (1558) – Pieter Van Der Heyder

O homem ao avesso

Afogava-se na lama do rancor.

Envolto a vencidos,

Que vociferavam ódio,

Engasgava-se em palavras inauditas.


Visto de fora

Era uma fonte límpida,

Um silencioso espelho d’água

Que refletia amenidades

De um mundo vazio.


Mas visto de dentro

O homem cativo

Impelia sua própria asfixia

Regurgitando a implacável ira,

Nascente de um rigoroso e retumbante rio.


Filho da ânsia,

Fraco e faminto,

Cedeu, enfim, seu rosto aos vencidos.

Descarnadas mãos frias

Fizeram-no sentir

A lama fétida

Do odioso vômito,

Alimento de seus dias.


Ao erguer-se

Viu-se em estilhaços.

Espelho d’água manchado,

Silêncio rompido,

O homem ao avesso

Agora vociferava o ódio

Ao lado dos vencidos.

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