Ego

ego
M.Escher

Habito a ruína de uma catedral vazia,

Onde entoo meus hinos ao infinito,

Cânticos primordiais da grande temporalidade,

Os velhos mandamentos do inconsciente coletivo.


Do teto, abóboda estrelada, em que leio os mortos,

Clareia-me a vida entre carbonos e complexos.

Compreendo os nexos e desenterro os ossos

Do passado fulgente, o lume eterno.


Tramam os fios polifônicos as Constelações,

Tarântulas torturadoras dos desígnios humanos.

Amarram-me aos nervos os antigos arquétipos,

Arquitetura espinhal dos meus mais profundos sonhos.


Recebo a seiva celeste desse universo possível:

As soluções pré-concebidas na história da humanidade.

Torno-me Sócrates, Jesus e Darwin

Torno-me também o inominado desconhecido.


Eu, amálgama forjada no âmago do tempo,

Rompo a barreira entre o passado e o presente

Pressentindo ser essa ruína sagrada

A obra inacabada do meu ego nascente.

 

Arquétipos

arquétipo

Das fundações profundas do mundo,

Onde dormem as imagens primordiais,

Retumbam os sons da velha pedra

Com as mesmas ordens,

Ao homem moderno,

Que regiam a vida dos seus ancestrais.


Constroem a superestrutura

Tropas e tropas de criaturas

Condicionadas a criativas reformas providenciais.

Traçam projetos, escrevem planos

De uma nova ordem mundial.


Esquecem-se, porém, dos arquétipos,

As vigas imanentes desse prédio,

Arquitetura inconsciente atemporal,

Que destroem o protótipo recriado ontem

Com a mesma voracidade

Que se sedimentam novamente na maquete


O homem que se dá conta disso

Percebe-se inútil e só

Mergulhado no esqueleto de um abismo,

Na imensidão imaterial

de um templo de tradições pré-concebidas

que rejeita toda forma de revolução.