Castidade – Lavoura

castitas
Kuisheid (Castitas) (1560) –  Cornelis Cort

Jorra água na terra do hortelão.

Sua ceifa é fruto de uma sintonia natural.

Sábio que é entende os sinais:


Os frescos suspiros do vento,

As viradas repentinas do ar,

A umidade que antecede as torrenciais.


Enquanto o inexperiente cava o poço

Atrapalha-se no trabalho duro

E antinatural


O hortelão retarda o plantio

Sabendo que a terra

Encerra em si

A sabedoria da espera.


Enquanto o megalômano rompe barragens,

Muda o curso dos rios,

Dos arroios e riachos.


O hortelão assenta a semente

Na terra preparada,

Que espera, em êxtase,

A chuvarada.

Luxúria – Abatedouro

É preciso ser muito primário para achar que o sexo é um ato físico.

(Millôr Fernandes)

luxuria
Luxuria (Lust) (1558) – Pieter Van Der Heyden

Inculto corpo fálico

Corta a carne virgem

Com a lâmina selvagem

Dos instintos mais profundos.


Uma vaca procriadora

Muge num paroxismo involuntário

Enquanto sangra.


Na sala fria e insalubre,

Escorrem líquidos distintos,

Das entranhas de ambos.


Um odor di femmina,

Que dilata os olhos,

Estoura as veias

Num arfante gozo

Do macho que come.