Avareza

Avaritia
Avarice (Avaritia) (1558) – Pieter van der Heyden

Atrás do muro há uma parede
Envolta há mil homens armados
Plebe, vedes!
Plebe, vedes
O poderio da liberdade!


Da pequena feira fez-se o forte,
Cidadela sitiada
– olha a fruta, olha verdura, olha o trigo!
Obra de Deus,
De tua venda, deves dízimo.


Chegam caixeiros, artesãos e camponeses,
Tomam as ruas em revolução
– Ordem no comércio!
Gritam os burgueses,
Os donos da região.


Um saque acontece na tenda ao lado
Correm todos para a ocasião
– Segurança no burgo!
Grita um vilão.
Cercam os muros bravos soldados:
-É provisória a intervenção.


Paga dízimo, paga soldo, paga imposto
– É preciso esforço!
Sorri o administrador.
Paga talha, paga censo, paga taxa
– São tudo banalidades
Sussurra o cobrador.


Repassa a correção
Sobe o vinho, sobe o pão, sobe o tecido.
– São tempos de recessão!
Na tenda ao lado, outro grito
– não é justa a divisão!
Um novo grito, um estampido
Jaz morta a indignação!


Do alto da torre, surge o trovão
O rei, o imperador, o deus dos desvalidos
Decreta novo artigo ao código regimentador
– Repressão aos baderneiros,
aos desordeiros, nossos inimigos,
contrários à arrecadação!


Instaura-se o golpe,
Um baque nas costas escurece a visão
Ao recobrar os sentidos percebe o vazio
O artesão
A tenda ao lado nem ao menos um suplício
Resta um abismo de solidão.


Prostrado, sozinho e falido
Busca, num último suspiro, alcançar seu pão
Pisoteado por coturnos ordeiros,
Recebe a violência como um não
– É preciso dinheiro para comprar!
Mas são tempos de recessão.

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